Não há dúvidas de que o futebol é um dos esportes mais difundidos no mundo, prova disso são os inúmeros campeonatos, sejam eles nacionais, regionais, e sua maior atração, o mundial, conhecido como Copa do Mundo. As atenções são calorosas: muita torcida, muito dinheiro, muita mídia... Mas para chegar aonde chegou, o futebol teve que percorrer um longo e sinuoso caminho. Para não ser demasiadamente longo, basta dizer que no passado as mídias da época já acompanhavam de perto tão ilustre esporte, nos jornais impressos e no rádio. Com achegada da televisão, as possibilidades se ampliaram ao público, que passou a não só a ouvir os acontecimentos do jogo, mas a ter uma visão praticamente em tempo real.
No entanto, tal perspectiva – uma visão panorâmica do campo e de seus elementos – é ao mesmo tempo uma ampliação e uma redução. Uma ampliação porque o indivíduo não precisa ir ao estádio onde ocorre a partida para vê-la*; não fica a interpretar ou mesmo a imaginar o que o locutor estar a descrever ou a narrar, pode até mesmo confrontar as informações, caso o locutor se engane com algum lance, por exemplo: trocar os nomes dos jogadores etc. Com o passar dos anos, e com o aperfeiçoamento das tecnologias telecomunicativas, ampliou-se ainda mais as possibilidades de visão, pois mais câmeras de diferentes tipos foram incluídas no grande show que se tornou o futebol. Contudo, a perspectiva televisiva não deixa de ser uma redução, pois as transmissões buscaram o enquadramento visto de um ângulo que se assemelhasse ao de um torcedor presente num local privilegiado do estádio – e atualmente, no maior tempo de transmissão de um jogo, ainda se tem esse enquadramento. O que é evidentemente diferente, pois um torcedor presente pode vislumbrar muitos outros elementos que necessariamente não estejam no lance com a bola, como se consagrou em grande parte a transmissão televisiva. Enfim, uma observação empírica seria recomendável, ou para não se chegar a tanto, entreviste-se um espectador de uma partida, ele sem dúvida fará grandes distinções.
Acontece que com a transmissão dos jogos pela televisão, os olhares se multiplicaram a um ponto imponderável, o que expôs as vicissitudes das partidas, com especial ênfase no desempenho dos árbitros. Não que antes das transmissões televisionadas eles não errassem, contudo, nesse novo contexto, praticamente o mundo inteiro pode assistir às suas falhas. Soma-se a isso, com advento das técnicas e das tecnologias, as câmeras puderam focar lances que não são possíveis ao olho humano, por exemplo, a aproximação de imagens; some-se ainda as diversas perspectivas geradas por câmeras distribuídas pelo estádio - chega-se até mesmo a se ter uma minicâmera afixada no travessão do gol. Não demorou muito para que os torcedores, comentaristas, locutores e desportistas em geral começassem a cogitar a possibilidade de esse aparato tecnológico servir de auxílio aos árbitros.
As intenções são boas, porém tais mediadas podem descaracterizar um jogo já tão consagrado. Muitos argumentos são emersos para defesa de tal tese, entre os quais o de que com o auxílio dos vídeos, os árbitros poderiam observar seus erros e corrigi-los. Esse é um argumento de maior peso, visto que tem uma finalidade nobre, mas vale lembrar que um esporte como futebol tem uma tradição, e que o erro (imanente a todo ser humano) já faz parte do jogo, sem contar, claro, que as interrupções para averiguação de cada lance – creio que pelo menos os mais duvidosos – acabariam interferindo na dinâmica do jogo, tornando-o demasiadamente longo e descontínuo. Há os que questionam a idoneidade dos árbitros, e há realmente casos que confirmam tais denúncias, porém, vale lembrar que o esporte está alicerçado em uma organização hierárquica que inclui federações e uma legislação pertinente, ou seja, casos de irregularidades são devidamente tratados nas instituições que lhe são próprias, cabendo ainda, depois de esgotados todos os recursos dentro esfera desportiva, o acionamento da justiça comum.
Há os que argumentam de que as decisões ficam centralizadas apenas em um homem, mas isso não se verifica na prática, pois numa partida há um corpo de árbitros, um juiz e dois bandeirinhas, conta-se ainda com uma equipe reserva, que inclui um quarto árbitro. Todos têm funções específicas, mas em caso de dúvida em determinado lance, o juiz pode consultar seus auxiliares. Vale lembrar que o desempenho dos árbitros é acompanhado por uma comissão da federação de futebol. Em suma, durante um jogo, a palavra final é a do juiz, mas ele não toma decisões sozinho, e não às cegas.
Muitos outros argumentos que defendem a utilização de vídeos pelos árbitros poderiam ser elencados, contudo, os mais plausíveis e por isso mesmo os mais recorrentes não se sustentam quando confrontados por uma análise profunda. Para o arremate deste debate, pode-se dizer que o futebol não é um esporte de precisão, assim como os demais esportes coletivos, sua arbitragem está na dependência dos limites humanos, sejam éticos, físicos, psíquicos etc. Por que seria diferente? Todos os demais esportes coletivos não usufruem de vídeos para as decisões dos árbitros, qual o interesse em fazê-lo para o futebol? Vai ver que foi sua imensa propagação no mundo, no qual se apresentou como um espetáculo esfuziante e encantador, e que por isso há uma irresistível vontade em aperfeiçoá-lo. Mas foi assim, com suas limitações, sua natureza humana, que ele seduziu a maioria das pessoas - das gerações passadas às atuais -, aproximando nações, tornando este planeta mais redondo, como uma bola de futebol.
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*Devido ao conforto de se assistir a uma partida de futebol em sua própria residência, institui-se que, em muitos casos, jogos realizados nos estados da federação não seriam transmitidos ao vivo pela mídia televisiva daquele local.
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