domingo, 31 de agosto de 2008
Descoberta
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
O intelctual e o pseudo.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Educação Mercantil
*Gregório Dantas Mendes
A educação brasileira passou por uma transformação radical nesses últimos vinte anos, não seria conveniente elencar todas, mas uma em especial faz-se de bom grado, principalmente à vista de alguns acontecimentos no nosso estado. Ei-la: A Mercantilização do Ensino.
Com a redemocratização do Brasil surge no cenário nacional a mania neoliberal, encabeçada pelo então presidente Fernando Collor. Mania já vista com olhos suspeitosos em outros países, mas que no Brasil chegou com sucesso; tal crença liberal - que de neo não tem nada - considera que o mercado deve ser seu próprio juiz, e que por isso o Estado não precisa intervir como vinha fazendo.
Mas o que Collor fez foi apenas dar os primeiros passos, o grosso mesmo veio com o governo de Fernando Henrique, que não tardou em privatizar empresas pertencentes ao estado. Atualmente temos Lula, que tanto criticou seu antecessor, mas que recentemente privatizou importantes rodovias no centro sul. Enfim, não entrarei no mérito de defender a estatização generalizada, até porque algumas privatizações desengessaram a máquina pública, com algumas ressalvas, temos o exemplo das telecomunicações. Também não convém dissertar sobre como a intervenção do Estado faz-se necessária em todas as dimensões que o mercado toma – isso, claro, na opinião proletária deste autor. Atenho-me a levantar questões sobre como a prática neoliberal desenvolvida no nosso país nos últimos (aproximadamente) vinte anos afetou a educação formal brasileira.
Basta uma observação empírica para constatar o vertiginoso crescimento das escolas particulares nos três níveis, crescimento decorrente de políticas que incentivaram as participações privadas no sistema de ensino, e que, por conseguinte, transformou o conhecimento num produto.
Sistemas de ensino que mais parecem franquias da Coca-cola tiveram sinal verde para atuar, enquanto definhava o ensino público, em especial o de nível superior. Cabe ressaltar que os outros dois, infantil e básico, tiveram um alargamento quantitativo, e que por isso, andam dizendo por aí, “a educação já está democratizada”. A verdade é que realmente houve um crescimento na oferta dos ensinos infantil e básico pelo setor público, mas uma vergonhosa queda da qualidade destes, principalmente a do básico. Isto para afirmar que embora crescendo, o ensino público definhou qualitativamente. Já o ensino superior definhou mesmo! Tanto na qualidade quanto na quantidade.
Interesses diversos contribuíram para a decadência do nível superior, a começar pelos acordos firmados com o FMI e a OMC, que preconizavam o investimento no ensino básico e se possível no infantil, deixando o superior a ver navios, ou seja, apenas mantendo minimamente suas estruturas, ou nem isso, como se pode ver em várias universidades públicas brasileiras.
Universidades novas não tiveram investimento, ou se tiveram, criaram cursos com déficit de profissionais tanto docentes como administrativos - existem cursos, até em universidades consideradas antigas, que só têm dois professores da área! Enquanto isso, as universidades particulares proliferavam como baratas, visto que as públicas não podiam atender a demanda - praticamente toda uma geração.
Bom, isso é o efeito neoliberal, que cria o Estado mínimo e abre as portas para o setor privado para que este supra as necessidades da população. Mas o que isso implica na lógica da Educação formal? É preciso lembrar que o Brasil nunca foi da vanguarda liberal e que nesse processo ele aceitou a história de que o Estado precisa lavar as mãos no que diz respeito às decisões e mesmo às prestações de serviços. Errado! Nenhum país decente pode se atrever a ser liberal sem ter um Estado forte, sem que este tenha a força de juiz, senão a barbárie mercadológica pode chegar a proporções desastrosas. É o que acontece com o ensino privado. A maioria das faculdades particulares não tem o menor compromisso com a educação de qualidade, visto que a lógica empresarial privilegia o lucro, o que causou um exponencial crescimento na nossa sociedade do “Doutor burro!”, aquele que terminou o curso e não detém conhecimentos necessários para exercer a profissão com dignidade, ou mesmo passar em concursos ou exames - caso da OAB.
Mas como isso se dá? Como uma instituição de ensino pode oferecer um serviço tão notadamente ruim? E como nosso Estado o permite? O que discorrerei aqui é do conhecimento de todos, mas poucos têm coragem de fazê-lo:
Acontece que a lógica do mercado altera a natureza das relações de ensino-aprendizagem. Uma instituição de ensino que trata o conhecimento como mercadoria, trata também seu discente como consumidor, ou seja, como cliente, e “cliente tem sempre razão!”. Eis aí o pormenor da coisa, a relação professor-aluno passa a ser intermediada pelo código do consumidor, o que é obviamente nocivo. Quem entre professores e alunos nunca ouviu o discurso: “Eu pago seu salário!”, e isso quer dizer: “Eu mando!”, “Eu estou sempre certo!”, “Eu faço o que eu quiser!”. Esse discurso evidentemente é proferido por um aluno, que, por mais inusitado que pareça, encontra grande ressonância.
Portanto, alunos que não desejam fazer o mínimo esforço que requer a aprendizagem formam um grupo, uma quadrilha preguiçosa coesa, que com muita facilidade podem infernizar a vida de um professor ou mesmo demiti-lo, basta reclamar à direção de ensino, seja verbalmente ou por escrito – o clássico abaixo assinado. Nada contra o direito de reclamar, estamos num país democrático, porém, nesses casos, a mediocridade se impõe, caindo por terra o princípio do mérito, e a direção da instituição dá toda guarida aos medíocres: “O freguês tem sempre razão”. Assim, o professor vê-se pressionado a abrir mão de toda sua autonomia como educador ou perderá seu emprego.
Por fim temos a terceira e última questão: “Como o nosso Estado permite isso?”. O que responderei aqui é tão evidente como as respostas anteriores, mas que causa igual incômodo. As instituições particulares de ensino encontraram tantas facilidades, tanto apoio de tantos governos através de contratos e outras coisas, mas como? Bem, todos sabem que os donos destas empresas são políticos, se não, laranjas destes. Está aí, não preciso me alongar mais quanto a isso, basta dizer que se um Governo tentar intervir através do nosso querido MEC nas fabriquetas de diplomas terá uma séria indigestão política.
As soluções para tais problemas não são fáceis, haja vista o círculo vicioso, pois governantes que deveriam visar os rigores da lei para que estas sejam aplicadas concernentes às instituições irresponsáveis, são, em sua maioria, donos destas. Necessário é ter-se um Governo corajoso e capaz de se indispor com empresários-políticos. Também cabe a todo cidadão e em especial, os professores, lutar urgentemente para se desinfectar o ensino da lógica mercantil e exigir que as políticas sobre a educação sejam de fato políticas públicas de Estado e não de governos, como vem acontecendo.
* Professor de Língua Portuguesa, Redação e Literatura no Estado do Acre.
sohlepsE sO
que refletiam o reflexo já refletido do reflexo
no salão sem a presença do sentir do ser
acreditava-se ser reflexo convexo e divergente
segura displicência e formal ignorância da perplexidade
recriando-se em imagens distorcidas
frustradas criações ingênuas
porém criaturas servas
desdobrando-se quase ao acaso
que por acaso.