quarta-feira, 13 de abril de 2011

MITO NÚMERO 2: “SER PROFESSOR É UMA MISSÃO”

Esse mito é para mim o mais odioso, haja vista o que há por trás dele. Mas comecemos por partes. Esse segundo mito está em muito ligado ao primeiro, quando se acreditava na transformação mágica da sociedade pela pura transformação educacional. Paulo Freire tem certa parcela de culpa nisso, mas principalmente aqueles que descontextualizam seu discurso, o que ocorre muito ainda hoje, em que ardilosos ou ingênuos fragmentam seus escritos e utilizam apenas o que lhes convém, e os pobres professores, que não são dados a leituras, a não ser de resumos, contracapas e orelhas de livros (estou sendo otimista), são facilmente enganados.

Paulo Freire era um engajado cristão comunista, sua veia religiosa era forte, mesmo sendo um seguidor de Karl Max (quem tem um ralo conhecimento histórico sabe que comunismo e cristianismo muito se afinaram na América Latina daquele tempo), e por isso chegou a pregar que ser um educador é uma missão, um ato altruístico, um martírio para se chegar a algo maior - junte-se comunismo e cristianismo e têm-se essas coisas. Em pouco tempo o ardiloso Estado brasileiro utilizou-se desse trecho discursivo de Freire para entusiasmar os professores. Entusiasmá-los e enganá-los. Pois alguém pode se perguntar: “Mas que mal há nisso?”, aliás crê-se que seja um bem. Eis aí onde mora o gato, pois cuidado com as boas intenções quando se trata de educação. Tal visão de que “ser professor é uma missão”, é um atraso para a consolidação profissional, pois um missionário não precisa ser bem pago, não precisa de condições de trabalho, não precisa de muita coisa, pois ele faz por amor, por ideologia, por acreditar.

Que maravilha! Você pode ter o máximo com o mínimo! Um estado neoliberal vê serviços essenciais como custos, e nada melhor do que ter um bom serviço pagando-se pouco por ele. Mas aí vem outro problema: a hipocrisia só gera hipocrisia. O estado não consegue um bom serviço dos professores porque é hipócrita e os professores tornam-se hipócritas para com o estado. O primeiro finge-se preocupado com a educação, com sua qualidade, suas condições de funcionamento, com os salários; e o segundo finge-se realmente engajado, entusiasmado, missionário, santo. Observai o mundo, papai, observai.

A realidade não pode ser maquiada, abra a janela e veja: a educação brasileira não condiz com o crescente desenvolvimento econômico e tecnológico do momento. O Brasil andou crescendo mais por sorte do que por mérito, graças à grande valorização das commodities nos mercados internacionais. Mas até quando esta maré de sorte se perpetuará? Não por muito tempo. Já há estudos que indicam que a precariedade da educação já afeta a produtividade, ou seja, as pessoas com o mínimo de estudo exigido pelo mercado de trabalho são incapazes de realizar tarefas simples, isso considerando os padrões de desenvolvimento atuais. A educação está descompassada, e isso é nó nos cadarços.

Então, chega de dissimulação, ser professor é profissão e não uma missão!!! Quem quiser ser missionário que vá para uma ordem religiosa. As pessoas que escolhem trabalhar como professores não devem fazer nenhum voto de pobreza nem passar por qualquer tipo de asceticismo. Precisamos consolidar essa consciência de que somos uma classe, somos uma categoria de trabalhadores que vende sua mão de obra, assim como tantas outras, e que estamos dispostos a fazer valer nosso esforço, que não é pouco.