segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Meritobrazilian

A Rodrigo Dantas Mendes - também coautor dessa crônica.


Num prédio da maior cidade do País, uma equipe mista, composta por estrangeiros e um brasileiro, realiza uma operação da mais alta periculosidade: o desarmamento de uma bomba nuclear, colocada lá por um grupo de terroristas - não se sabe se terroristas do governo ou não. O Brasileiro, especialista em desarmamento, está junto à bomba no salão do 13°andar, enquanto outro grupo de estrangeiros coordena a operação numa área segura.
- Brasileiro? Cambio? – pergunta o chefe das operações.
- Sim, estou ouvindo. Cambio.
- Já encontrou a bomba? Cambio?
- Já, tá aqui na minha frente. Cambio.
- Então pode realizar os procedimentos de averiguação. Cambio.
- Já realizei, está tudo certo. Cambio.
- Ótimo, é bom ver que você tem muita confiança. Bom, verifique quanto tempo temos para o desarmamento. Cambio.
- Bom é... deixa eu ver ... ah, menos de dois minutos! Cambio.
- Então temos que nos apressar! Mantenha a calma e tudo dará certo. Você já retirou a parte superior da bomba? Cambio?
- Como assim? Cambio?
- Você já abriu a bomba, e retirou o dispositivo de acionamento? Cambio?
- Ah, não. Cambio.
- Não! O que que você ficou fazendo nestes quinze minutos ? Cambio?!
- Fiquei observando ... Cambio!
- Obser... o quê?!! Tá, tá, então seja rápido e abra esta bomba! Cambio!
- Não posso, esqueci minhas ferramentas... Cambio!
- VOCÊ O QUÊ?!!! Mas... mas... como você pôde ter esquecido seu equipamento de desarme, seu animal!!! ... Tá, tá, mantendo a calma, mantendo a calma. Tente abri-la manualmente, use o que lhe for possível, afinal você é o mais qualificado homem do esquadrão. Cambio!
Nisso ouve-se o choro do especialista pelo comunicador. Todos ficam estupefatos e o chefe pergunta sussurrando “o que ele está fazendo?”, e alguém da equipe responde, também sussurrando: “parece que ele está chorando”. Os olhos da equipe se dilatam numa mistura de pavor, nervosismo e ódio.
- Chefe? – diz o especialista Brasileiro, soluçando - tenho algo a dizer.
O Chefe nada responde, fica catatônico, de boca aberta.
- Sabe, aquele meu currículo... é falso. Eu não tenho doutorado. Paguei pra alguém fazer por mim (soluços).
E o chefe, num último ataque de esperança diz:
- Do que importa os diplomas? São só papéis! Você passou nas provas de admissão do esquadrão!Está qualificado! Confie! Vá lá e desarme est...
- Chefe?! Eu ... eu fraudei o concurso. Eu... eu... comprei o gabarito... e os jurados (mais soluços)
- Você o quê?!
- Chefe... eu... eu... mal sei ler. Sempre achei as coisas muito difícil... eu só queria fazer coisas que nem no cinema...
- Cala essa boca!!! Mas como? Como você chegou a ser o maior especialista nesta porcaria de esquadrão?!!
- É que meu pai é um homem muito influen...
BUM!!!
... e lá se foi um País.

domingo, 19 de setembro de 2010

Amostra quase grátis

Detesto ter que admitir, mas sou em grande parte melancólico. Mas não o bastante para não rir disso, de mim mesmo. Ultimamente até tenho me sentido melodramático... Isso passa, até a uva passa, já diria um poeta. Mas não, nada passa: se transforma.

Tenho uma amostra de um pedaço melancólico de mim, quer dizer, duns caras aí do Rock que me ajudam a sorver esse doce mel sentimental.


Islands – Ilhas (tradução)

Terra, riacho e árvore envoltos pelo mar
Ondas expelem as areias de minha ilha.
Meus entardeceres se dissipam...
Campo e clareira esperam apenas pela chuva.
Grão após grão, o amor consome meus paredões corroídos pelas ilusões que fantasiam a maré,
Ocultam o vento
de minha ilha.

Pálidos penhascos de granito onde gaivotas voam e escorregam,
Tristemente choram sobre minha ilha.
O véu de noiva do amanhecer, úmido e pálido,
Dissolve-se no sol.
A rede do amor é tecida – gatos rondam, ratos fogem.

Mãos de espinhos, onde as corujas conhecem meus olhos,
Céus violetas,
Tocam minha ilha, tocam-me...

Sob o vento, quebra a onda.
Paz infinita.
Ilhas juntam suas mãos
Sob o mar celestial.

Escuros ancoradouros como dedos de pedra
Estendem-se famintos por minha ilha.
Agarram palavras de marinheiros:
Pérolas e cabaças são jogadas pela minha costa
Iguais em amor, atadas em círculos.
Terra, riacho e árvore voltam para o mar.
Ondas varrem a areia de minha ilha,
De mim...


King Crimson, uma banda de Rock Progressivo inglesa. Se quiser ouvir o som, tá aqui: http://www.youtube.com/watch?v=no0NOnilp6Q .Tem os quadros do pintor Jacek Yerka no vídeo. Não é o clip, pois essa banda raramente o faz. Bom proveito.

P.S. Fiz umas modificações no texto traduzido para uma melhor leitura, assim creio eu.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Aprender a desaprender com José Saramago.

Aproveito esse momento comovente pra também comer um pouco do cadáver desse escritor afamado, afinal vive-se disso, de sobras, de momentos inoportunos, de pútrida e deliciosa carniça: heranças desse último século, aprofundadas neste que se inicia.

Não foi na escola que li seus livros, foi fugindo dela. Escola não é lugar de leitura - incluo também a universidade*. Li por conta própria, em intervalos noturnos e férias paralíticas. Meu primeiro romance foi o Evangelho Segundo Jesus Cristo. Foi por curiosidade? Sim, era simplesmente muito famigerado. Tive que conferir. Mas confesso que não me chocou nem um pouco. Foi pra mim uma versão humanista do evangelho e ao mesmo tempo reveladora da opressão divina. Chocava-me mais Nelson Rodrigues. Não entendia por que tanto alarde. Mas pra quem foi criado em parte por uma mãe atéia e comunista, nada assusta.

O que me surpreendeu foi sua maneira de escrever. Tive enormes dificuldades. Seus diálogos são confusos, seu narrador dissolve-se nas falas dos personagens e também nas descrições/reflexões poéticas; há (con)fusão de vozes. Acrescento o fato de que ele (o autor) não subestima seu leitor, pelo contrário, o desafia. Não diz tudo, espera que o aventureiro conheça ao menos a versão oficial (nos casos do “Evangelho” e agora também do “Caim”), e que também tenha um pouco de cultura que vá além de Shoppings Centers. Enfim, tive que ler algumas páginas deste livro inúmeras vezes, também paralelamente relembrar os quatro evangelhos. Foi intenso.

Vencido esse romance, me aventurei no Ensaio Sobre a Cegueira, este fora recomendado pela minha irmã mais velha (também uma errante como eu). Aqui devo acrescentar todo meu apreço a esta obra. Fui realmente arrebatado, não conseguia parar de lê-la. Fugia das aulas do curso de Letras/Português pra ir à biblioteca continuar lendo. Às vezes lia na sala mesmo, antes do professor ou professora (não lembro) chegar. Enfim, minha vida era aquele livro, fora dele, tudo era ilusão.

Com o tempo, estava mais maduro para as pontuações inusitadas deste autor. Tinha aprendido seu ritmo. Dançava com ele, pintava quadros e dirigia cenas. Desaprendi a pontuar com Saramago, e aprendi algo muito melhor: A língua escrita deve estar à mercê da beleza no seu sentido mais amplo, isto quer dizer, abrangendo também o seu contrário. Pude ver, em minhas andanças, e nitidamente em José Saramago, que em se tratando de língua, não existe regra que não possa ser corrompida (Ex: o sujeito poderá vir no fim do parágrafo separado de seu predicado por um ponto). Contudo, ele não desobedece por desobedecer, pra dizer-se do contra, como muitos jovens incautos e iludidos, ele desobedece pra criar. E cria. Recria a língua: tecido do ser.

Para finalizar, não posso deixar de fazer uma observação: para ler Saramago é preciso distanciamento dessa vida conturbada, caótica, barulhenta e disforme. Deve-se buscar um tempo que não se dispõe. Aprendi isso a muito custo. Tinha (e ainda tenho) a mania de ler no ônibus, em paradas, em salas de esperas de hospitais etc. Mas não! Saramago não! Não mais. Ouçam: Saramago é sagrado. Precisa-se de ritual, de estado receptivo do espírito. Não adianta forçar (entenda, não estou falando de esforço), não se está a ler uma revista semanal de opiniões, lê-se literatura, a das mais perturbadoras, entenda-se: transformadoras.

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*Irritava-me o excesso de aulas expositivas sobre obras e autores, quando poderíamos, na verdade, lê-los. Quatro horas, durante quatro anos, sem leitura. Vide o exemplo de universidades mais avançadas: não há aulas todos os dias, os alunos lêem bibliografias recomendadas e, em data marcada, aparecem para o debate.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

sábado, 10 de abril de 2010

Quarenta anos para sempre.

Mudando a tônica que tomou esse blog, quero fazer hoje uma homenagem a uma das bandas que transformou o jeito de se fazer música. Faço isso porque hoje, 10 de abril, se lamenta o dia de seu fim, há quarenta anos, quando Paul McCartney anunciou oficialmente que os Beatles já não mais existiam.

Pra mim, a existência dos Beatles nunca foi ignorada, quer dizer, desde a mais tenra idade eu sabia o nome dessa banda, já tinha ouvido algumas músicas, mas não fazia idéia do que elas falavam ou de onde aqueles quatro rapazes tinham vindo; achava que eles eram estadunidenses, como a maioria das bandas internacionais que estavam em voga na década de 80. Notava que o estilo deles era outro, antigo, e eu não gostava. Tinha conhecimento deles não por meio da mídia da época, rádio e TV, mas porque a minha mãe tinha alguns discos de vinil, o bulachão, e uma coleção de fitas cassetes. Meus irmãos colocavam os discos e nós tentávamos dançar, mas nem sempre dava certo, algumas músicas não eram nada dançantes.

Chegou a década de 90 e nós (meus irmãos e eu) já estávamos nas asas do rock, só que da época, Guns’n’Roses, Metálica, Iron Maden, Faith no More ..., e a coqueluche do momento, o grunge: Nirvana, Alice Chans, Pearl Jam, e por aí vai. Minha banda preferida era Guns’n’Roses. Até que uma dia minha irmã mais nova passou a investigar as coisas velhas de minha mãe, ainda lembro, uma caixa cheia de fitas cassetes, que tinham cores em degradê, vinha de uma espécie de amarelo até se tornar um tipo de vermelho, se não me engano. Lá ela começou a puxar umas músicas das quais eu já tinha ouvido ou que tinha ouvido em outra versão, eram os Beatles. Mas não dei muita importância, achava o som muito fraco, não tinha distorção de guitarras, pra mim aquilo nem era rock.

Foi um dia, estávamos escutando Guns’n’Roses, quando toca a música Live and let die, meu tio que estava conosco disse “Essa música é dos Beatles, heim!”. Não acreditei, logo ela, uma das minhas músicas preferidas. Então fiquei instigado, fui ouvir a versão original. Claro que eu preferi a do Guns. Achei a original muito sem graça, tinha uma orquestra que fazia um som esquisito, e não tinha peso. “Cadê a guitarra distorcida?”, dizia.

Então fui em frente no rock pesado, tanto que na adolescência cheguei a ouvir punk, trash, hardcore, e por aí. Mas paralelamente fui ouvindo rock nacional, estava cansado de ouvir música em inglês o tempo todo. E como se sabe o rock nacional é mais leve, pelo menos o da década de 80. Gostei, estava querendo ver mais sentido nas coisas. Foi quando me veio a idéia de fazer uma banda de rock, não posso me alongar, mas foi divertido. Então, eu e o baixista da banda, entendemos que se quiséssemos fazer música tínhamos que estudar... música! Foi quando conseguimos uma bolsa de estudos de um projeto na escola de música Muzicalizar (merchandising). Ótimo! Dois punks estudando música clássica!

Com o tempo fui vendo as sutilezas das composições, tive contato com muitos músicos bons que sempre me apresentavam sons diferentes. Foi aí que conheci o rock progressivo. Foi um choque a primeira vista, mas estava a fim de desafios. Fui desentupindo os ouvidos e fui aprendendo que rock não precisa de distorção para ser doido. Rock doido é som doido, é harmonia, é composição, é sonoridade, que também é sublime. Então disse: “Anos sessenta e setenta aqui vou eu!”.

Mergulhei no progressivo, foi quando ouvi dizer que a onda do psicodelismo no rock tinha começado com os Beatles. Falei, “Tá de putaria!” Corri pra pegar emprestado um Cd (já estava na época do Cd), era uma coletânea. As primeiras músicas não me surpreenderam tanto, já as conhecia, mas já as ouvia de forma diferente, percebendo a forma. Foi quando ouvi Strawberry Filds Forever, então entendi. Já tinha ouvido falar dessa canção na música da Legião Urbana, chamada Dezesseis, mas não a imaginava tão poderosa, de uma melodia fora do comum, e de um arranjo magnífico. Sem falar na sonoridade e de um final inexplicável, que pude contextualizar, pois não existia Pink Floyd na época em que fora gravada, na verdade, não existia nada na música pop que fosse igual.

No final do disco veio A Day In The Life, fiquei em pé, ouvindo com todo meu espírito aquela canção. Coloquei ela umas quatro a cinco vezes, e disse no meu íntimo: “Quero que toquem essa música no meu enterro”. Cheguei até a falar isso para alguns amigos meus, mas eles não levaram a sério.

Depois disso, fui atrás de conseguir os álbuns dos Beatles. Não consegui todos, haja vista que também não tinha dinheiro. Me interessei mais pela fase psicodélica, e foi aí que entendi porque as fitas cassetes de minha mãe estavam em degradê, pois Beatles é uma banda de duas fases, a Yeye-é e a psicodélica. Entendi, porque se você acompanhar todos os discos em ordem cronológica, perceberá a mudança, a evolução das composições, especialmente das letras. Embora os últimos dois discos (Abbey Road e Let it Be) tenham vertentes blues e country (origens do rock), mas a forma, variações e as melodias, eram daqueles caras de Liverpool.

Depois de conhecer com mais propriedade essa banda que todos falam, mas poucos se atrevem a infiltrá-la, percebi que no mundo do rock/pop não há muito o que fazer depois deles, o que se pode fazer é explorar os caminhos que eles abriram. E foi isso que aconteceu na década de setenta. Beatles virou um tempero, uma cor, que se pode acrescentar muito ou pouco, mas é sempre bom tê-lo à mão; É um ponto cardeal, pode você se aproximar ou não dele, mas se se distanciar demais, sua composição poderá não fazer bem a ouvidos mais exigentes, incluse aos seus.

Esta estrela guia está lá, o mundo todo a viu, e foram muitos que dela se serviram. Hoje, muitos jovens a ignoram. Isso explica tantas músicas passageiras e nauseantes no universo do pop/rock. Eu também já fui assim, mas fui salvo.

Obrigado Lennon, George, Ringo e McCartney, e todos aqueles que estiveram com vocês, fazendo música da mais alta qualidade, proliferando a jovens de todos países o sonho de se fazer uma banda e conquistar o mundo, ou pelo menos um lugar nele. Estou no Acre, em 2010, mas eu não esqueço.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Hermenautas

O céu se abriu, surgindo uma enorme espaçonave. Muita gente morreu dizendo ser o fim do mundo. Mas era só uma espaçonave. A postos o mundo ficou. Todos com medo e curiosos de tanto medo. Foi quando da nave se expeliu uma voz robótica, que provavelmente traduzia o idioma alienígena. Dizia: "Senhores terráqueos, viemos aqui para iniciá-los no verdadeiro conhecimento cósmico. Escolheremos um entre vocês para que obtenha todas as informações que dispomos. O levaremos para um passeio pelo universo, então o traremos de volta, e ele revelará o que para vocês ainda são mistérios".

Ao contrário do que se possa imaginar, os alienígenas não são tão criteriosos. Escolheram um homem qualquer da multidão que ali, estarrecido estava. Lançaram um raio levitador e o trouxeram para dentro da nave. Sem mais cerimônias, retrocederam ao infinito.

A confusão estava posta, ninguém conseguia fazer mais nada. A economia entrou em total colapso, não importavam mais as leis. Vieram os saques, a histeria generalizada, suicídios em massa, os arrependimentos em dobro. A Terra tinha virado um verdadeiro pandemônio.

Todos tinham uma interpretação dos fatos, as igrejas, os filósofos, os ufólogos (que gritavam vitória), e sobretudo a imprensa, que não tardou de expor exaustivamente o caso. Tanto que investigou a fundo quem era aquele tal “escolhido”. E pra surpresa de todos, ele era um ninguém! Um funcionário de uma repartição de vendas de materiais de escritório. Enfim, falar dele dava um tédio. Nunca fez nada proveitoso para os outros; não tinha dito nada genuíno a vida inteira, e muito menos escrito, pois se soube que até sua monografia de bacharelado fora copiada da internet. Chamá-lo de medíocre seria superestimá-lo.

E nisso o mundo continuava numa caótica espera. Todos olhavam para o céu e pensavam e às vezes diziam “Será que é hoje? Por que estão demorando tanto? O que será que ele vai nos contar?” E por aí foram-se os dias, até que, sem mais nem menos, a nave retorna ao mesmo local. Todos intuitivamente já a esperavam lá. O homem fora depositado ao chão com o mesmo raio levitador que o abduziu. A espaçonave partiu novamente, sem deixar recado.

Todos correram para perto dele, mas a polícia e o exército impediram a aproximação da multidão. Ele tinha um olhar transtornado, tão longe quanto a escuridão da noite. Apenas falou que queria descansar e que contaria tudo o soube e o que aconteceu no dia seguinte. Logo se preparou uma grande teleconferência que seria transmitida ao mundo todo.

Escoltado por inúmeros guardas e agentes especiais, com o apoio dos exércitos, foi para o hotel que estava reservado somente para ele. O lugar estava cercado de luzes e sobrevôos de helicópteros. Distintas autoridades queriam lhe fazer inúmeras perguntas, mas ao mesmo tempo em que parecia estar estranhamente transformado, também parecia cansado. Disse que precisava de um banho e descansar um pouco, depois falaria com homens quadrados.

Não há dúvidas de que já era outra pessoa. Tinha a sua alma envelhecido mais do que uma montanha. No quarto, cercado de seguranças, passou um longo tempo sentado olhando fixamente um ponto qualquer. Levantou-se, pegou a indumentária de banho e lá no banheiro, morreu.

O diagnóstico oficial é de que cometeu suicídio. Não se sabe exatamente porque, e talvez nunca se saiba. Dizem que não agüentou a pressão. Já outros dizem que foi assassinado pelo serviço secreto. Outros, por um grupo radical religioso. Há os que dizem que tudo não passou de uma armação, um show de efeitos especiais que provocasse distração, para que alguns governos poderosos pudessem fazer uma grande manobra política. Uns, dizem, que foi tudo isso junto.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A ponte

Todos ficaram perplexos quando ele disse:

- Temos que fazer uma ponte.

- Mas senhor Prefeito, nós não temos rio, nem riacho; nós não temos nem sequer água na superfície do vale!

- Não tem problema, façamos assim mesmo!

- O senhor não deve estar bem do juízo, essa ponte não servirá de nada!

- Não seja pessimista meu querido secretário! Uma ponte é muito útil para unir as pessoas, para transpassar obstáculos... Uma ponte é... é um símbolo poderoso do destino, da passagem impensável, da superação de todas as distâncias, da comunhão, do sobrevôo! Sejamos visionários! Do que falam os poetas senão de pontes?! Vamos! Animem-se! Será um bem para todo sempre!

Houve uma tremenda confusão e na fresta do barulho o secretário diz:

- O senhor enlouqueceu, não há a menor dúvida! Vamos ter que destituí-lo do cargo. Senhores, façamos o mais rápido possível uma assembléia extraordinária!

Do que o prefeito retruca:

- Devo lembrar aos senhores que sou o homem mais poderoso e influente desta cidade, e que todos aqui me devem muito. Tornei-me isso a muito custo, um ser desprezível, para que assim realizasse meu sonho: a construção de uma grande ponte! Uma ponte que durará para sempre!

Todos se calaram, pois de fato, ele era realmente o homem mais poderoso daquela região longínqua. Então disseram de diferentes maneiras a mesma opinião:

- Bom, que se faça essa ponte, pois nem bem nem mal nos fará!

Pois o engano não tardou a aparecer. Os recursos utilizados para fazer a tal ponte eram impressionantes: o prefeito gastou tudo o que tinha e endividou a cidade de maneira que se tornou impossível sanar os prejuízos. O custo da obra era astronômico devido ao material ao qual o prefeito insistia em fazê-la, dizia ele:

- Esse material, eu sei bem, é um material indestrutível! Essa ponte não perecerá jamais ao tempo ou às catástrofes! Vejam! Eu já posso ver! É ela, é a nossa ponte!

Finalmente a ponte foi feita. O prefeito velho e louco morreu satisfeito. As pessoas maldiziam a obra, até tentaram derrubá-la, mas a ponte era dura demais... Então, como que no final de uma festa, todos, aos poucos, foram embora. A ponte ficou lá, ilesa; e diziam uns que ela estava sempre sorridente, assim como seu idealizador.

O tempo, que é areia dançante, percorria o vale e apagava as imagens, como lembranças que se esfumaceiam e cantam uma canção sem memória. A cidade sumiu, mas a ponte ali permanecia, intacta. Um dia, por obra de um acaso qualquer, pôs-se um rio a atravessar por debaixo daquela ponte eterna.

terça-feira, 30 de março de 2010

Questão de matemática

Dois meninos discutem por um pedaço de papel amassado, um diz “você é muito babaca!”.
- É você que é otário.
- Otário é tu!
- Não, é tu!
- É tu!
- É tu, é tu e é tu!
- É tu mil vezes!
- É tu um milhão de vezes!
- É tu um bilhão de vezes!
- É tu um trilhão!
- É tu um trilhão, mais quatrocentos bilhões, mais oitocentos milhões!
- Ah é, é?! É tu o infinito de vezes!
Fez-se um silêncio, e quando já se anunciava o vencedor, que já estava começando a esboçar um sorriso, ouve-se:
- É tu o infinito e mais um!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Bola de Sabão

Meados da década de 80, época de muita efervescência política, de redemocratização, de luta pelos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos índios, da reforma agrária e de muitos outros sonhos lindos e frágeis. E num momento raro de convivência, um menino de seis anos pergunta à sua mãe comunista:
- Mãe, Deus existe?
- Não, meu filho. Deus é uma invenção dos homens para preencher e dar sentido a sua vida. Também serve para deixá-lo alienado, pacífico, inerte, subserviente a uma classe dominante, que o explora e o escraviza. Atualmente essa classe dominante é a burguesia.
- E... ah... é... que...
- Pergunte meu filho. Quer perguntar mais alguma coisa?
- É... não, deixa pra lá.
O menino não entende muita coisa; vai para quarto ainda confuso e chocado, e pensa:
"Se Deus não existe, quais seriam as chances de Papai Noel?!"

domingo, 14 de março de 2010

FRIPPON

Eu quero falar sobre a verdade...

A verdade é que por volta do século 38, depois da 6ª, da 7ª, da 8ª, e da 9ª Guerra Mundial, a Humanidade, quase desapareceu. Aos farrapos aqueles poucos sobreviventes decidiram parar com a carnificina e resolveram refletir sobre o que há no ser humano para ele ser tão destrutivo. Promoveram então um grande congresso onde praticamente todos participaram.

Nesse congresso, passaram 100 anos conversando, debatendo, discutindo, discordando... Até que alguém levantou a idéia de que era justamente isso: a COMUNICAÇÃO. O ser humano utiliza-se de meios falhos para se comunicar, por isso o desentendimento, a dissimulação, as limitações. Todos concordaram com a idéia, afinal, parecia ser a explicação mais plausível até então.

Passaram mais 100 anos discutindo para decidir o que iria ser feito. Até que alguém que já não agüentava mais aquela situação, defendeu que se deveria proibir de vez a comunicação! Que não se utilizasse mais o signo: a PALAVRA, sob nenhuma de suas formas e dimensões. O que assim foi votado e decidido por unanimidade. Então, por força de Lei, do Estado Único da Humanidade, proibiu-se a todo e a qualquer ser humano, comunicar-se.

Acontece que, escondidas das autoridades, as pessoas continuavam se comunicando, falando, sussurrando. Logo, por força de Lei, do Estado Único da Humanidade, foi mandado que se extirpassem as cordas vocais de todos! Sem exceção! Pois naquela época, sob nenhuma hipótese, ninguém estaria acima da Lei do Estado Único. Ninguém.

O tempo foi indo, e às escondidas, as pessoas ainda continuavam se comunicando, utilizando-se da escrita e dos gestos. Logo, decidiu-se que, por força de Lei, do Estado Único da Humanidade, todo ser humano fosse cegado. E assim foi feito, sem exceções.

Mesmo assim, as pessoas continuavam a se comunicar, só que agora, através dos sons rítmicos: batendo palmas ou em objetos, de forma que inventaram vários códigos e dialetos, assim como se proliferaram os que já existiam. Não demorou muito para que o Estado Único da Humanidade mandasse arrancar o tímpano de cada ouvido humano.

Muda, cega e surda, a Humanidade perambulava pelo frio salão de mármore de sua alma. Foi quando, por uma extrema necessidade, as pessoas desenvolveram uma habilidade aparentemente inexistente, a telepatia. Comunicação por ondas cerebrais que ligou diretamente um indivíduo a outro. Dessa forma, todos se intercomunicaram, criando uma rede única de conexões instantâneas. Assim, surgiu uma nova espécie, sem nome, sem palavra, que se sintonizavam por ondas rápidas como o pensamento.

Com o passar dos séculos e suas conformações, instalou-se a perfeita harmonia entre estes seres inominados. Um milagre! Todos agora realmente se entendiam. As pessoas se tornaram verdadeiramente solidárias, pois conseguiam estabelecer uma conexão direta e sensitiva com os outros, a pura alteridade. Assim, nem mesmos os casais cometiam brigas irascíveis, pois passaram a entender a cor e a intensidade do sentimento alheio, sua freqüência e suas variações. E como é de se prever, não havia mentiras.

(Quero dizer também que aqueles cujo interesse fosse prejudicar alguém, direta ou indiretamente, eram sumariamente executados pelos demais. De forma que,com os séculos, não havia mais ninguém verdadeiramente capaz de ter tais intenções).

Outras funções cerebrais surgiram, ou foram aprimoradas, coisas consideradas impossíveis até então. Assim, despertados novos sentidos, revelou-se a mais pura compreensão do universo, e os avanços foram incomensuráveis. Logo, não havia mais mistérios! Perante novos olhos, toda a realidade fora revelada! Descobriu-se o que verdadeiramente se é, e o que verdadeiramente são todas as coisas. Os infinitos.


(...)
Vivi entre estes seres sem nome, conectado a uma rede cerebral, indissociável, indiferenciável. Todos eram, de alguma forma, um único ser; todos eram... ninguém, nada. Unos, harmônicos e perfeitos. Me vi no sétimo céu, o que para mim não deixava de ser o mais profundo dos infernos.

Não conseguia saber quem eu era. Não podia dizer sequer, “eu!”... Já não era nada, não existia. Era apenas uma massa amórfica sem nome. E para piorar, não havia mais nada a ser revelado, ou inventado, ou imaginado... E quando se sabe de toda a verdade, tudo é limite... e eu não queria saber tanto.

Por isso eu tive que recorrer a este século, a esta era primitiva. Voltando no tempo...

Voltei porque queria mentir, porque queria dizer “eu”, queria fazer poesia.

sábado, 13 de março de 2010

Coisa estranha

Uma manequim de plástico, sabe, dessas de vitrine, me disse que o coração não tem freio de mão. É, foi o que ela disse...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Conselho

Ainda que fosse verdade, não acredite
E mesmo que você visse e tocasse
E que te chamasse pelo nome
E dissesse que não vale a pena
Pois só há dor da perda, e dor de tudo
E que a vida não vale
Não acredite, ainda que fosse verdade

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Desenterrando

Aqui vai um poeminha que fiz quando de uma desilusão amorosa/idelógica/filosófica e o escambau. Vale a pena ver de novo - será?


... e eu perdi a guerra...
... e eu morri na praia...
... e a praia era loira...
era,
loira falsa!

Não lembro do título, acho que nunca dei. Mas não importa.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Luvuz

A maioria das vozes anda em bandos
Uma voz anda só às vezes
Negra no escuro sombria
Estranha, Espanta as outras vozes


Selvagem voz percorre quase virgens caminhos
E segue
Guiada pela luz invisível da aurora
Enquanto outras vozes circundam luz incrível
E pasmam e creem...
Até que a luz vai embora

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Vozes

Talvez, você, seja, apenas, uma voz...
Talvez, você, seja, apenas, uma voz...
Uma voz
Talvez
Seja
Apenas
Você
Uma voz
Talvez
eu
Você
Seja
Apenas
Talvez
Uma voz
Apenas
Talvez
Nada
Seja
Apenas
Uma voz
Talvez
Você
Seja
Apenas

Uma voz... Uma voz... Uma voz...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

....

Toda rosa
Tudo que se coloca em verso em prosa
Amor e não
Toca, canta, dança
Toda boa imaginação
Levita, nutre a essência
Pos-si-bi-li-ta
a vida
Trans-forma
Tudo em rosa, verso e prosa
Toda boa imaginação