sexta-feira, 9 de abril de 2010

Hermenautas

O céu se abriu, surgindo uma enorme espaçonave. Muita gente morreu dizendo ser o fim do mundo. Mas era só uma espaçonave. A postos o mundo ficou. Todos com medo e curiosos de tanto medo. Foi quando da nave se expeliu uma voz robótica, que provavelmente traduzia o idioma alienígena. Dizia: "Senhores terráqueos, viemos aqui para iniciá-los no verdadeiro conhecimento cósmico. Escolheremos um entre vocês para que obtenha todas as informações que dispomos. O levaremos para um passeio pelo universo, então o traremos de volta, e ele revelará o que para vocês ainda são mistérios".

Ao contrário do que se possa imaginar, os alienígenas não são tão criteriosos. Escolheram um homem qualquer da multidão que ali, estarrecido estava. Lançaram um raio levitador e o trouxeram para dentro da nave. Sem mais cerimônias, retrocederam ao infinito.

A confusão estava posta, ninguém conseguia fazer mais nada. A economia entrou em total colapso, não importavam mais as leis. Vieram os saques, a histeria generalizada, suicídios em massa, os arrependimentos em dobro. A Terra tinha virado um verdadeiro pandemônio.

Todos tinham uma interpretação dos fatos, as igrejas, os filósofos, os ufólogos (que gritavam vitória), e sobretudo a imprensa, que não tardou de expor exaustivamente o caso. Tanto que investigou a fundo quem era aquele tal “escolhido”. E pra surpresa de todos, ele era um ninguém! Um funcionário de uma repartição de vendas de materiais de escritório. Enfim, falar dele dava um tédio. Nunca fez nada proveitoso para os outros; não tinha dito nada genuíno a vida inteira, e muito menos escrito, pois se soube que até sua monografia de bacharelado fora copiada da internet. Chamá-lo de medíocre seria superestimá-lo.

E nisso o mundo continuava numa caótica espera. Todos olhavam para o céu e pensavam e às vezes diziam “Será que é hoje? Por que estão demorando tanto? O que será que ele vai nos contar?” E por aí foram-se os dias, até que, sem mais nem menos, a nave retorna ao mesmo local. Todos intuitivamente já a esperavam lá. O homem fora depositado ao chão com o mesmo raio levitador que o abduziu. A espaçonave partiu novamente, sem deixar recado.

Todos correram para perto dele, mas a polícia e o exército impediram a aproximação da multidão. Ele tinha um olhar transtornado, tão longe quanto a escuridão da noite. Apenas falou que queria descansar e que contaria tudo o soube e o que aconteceu no dia seguinte. Logo se preparou uma grande teleconferência que seria transmitida ao mundo todo.

Escoltado por inúmeros guardas e agentes especiais, com o apoio dos exércitos, foi para o hotel que estava reservado somente para ele. O lugar estava cercado de luzes e sobrevôos de helicópteros. Distintas autoridades queriam lhe fazer inúmeras perguntas, mas ao mesmo tempo em que parecia estar estranhamente transformado, também parecia cansado. Disse que precisava de um banho e descansar um pouco, depois falaria com homens quadrados.

Não há dúvidas de que já era outra pessoa. Tinha a sua alma envelhecido mais do que uma montanha. No quarto, cercado de seguranças, passou um longo tempo sentado olhando fixamente um ponto qualquer. Levantou-se, pegou a indumentária de banho e lá no banheiro, morreu.

O diagnóstico oficial é de que cometeu suicídio. Não se sabe exatamente porque, e talvez nunca se saiba. Dizem que não agüentou a pressão. Já outros dizem que foi assassinado pelo serviço secreto. Outros, por um grupo radical religioso. Há os que dizem que tudo não passou de uma armação, um show de efeitos especiais que provocasse distração, para que alguns governos poderosos pudessem fazer uma grande manobra política. Uns, dizem, que foi tudo isso junto.

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