sábado, 10 de abril de 2010

Quarenta anos para sempre.

Mudando a tônica que tomou esse blog, quero fazer hoje uma homenagem a uma das bandas que transformou o jeito de se fazer música. Faço isso porque hoje, 10 de abril, se lamenta o dia de seu fim, há quarenta anos, quando Paul McCartney anunciou oficialmente que os Beatles já não mais existiam.

Pra mim, a existência dos Beatles nunca foi ignorada, quer dizer, desde a mais tenra idade eu sabia o nome dessa banda, já tinha ouvido algumas músicas, mas não fazia idéia do que elas falavam ou de onde aqueles quatro rapazes tinham vindo; achava que eles eram estadunidenses, como a maioria das bandas internacionais que estavam em voga na década de 80. Notava que o estilo deles era outro, antigo, e eu não gostava. Tinha conhecimento deles não por meio da mídia da época, rádio e TV, mas porque a minha mãe tinha alguns discos de vinil, o bulachão, e uma coleção de fitas cassetes. Meus irmãos colocavam os discos e nós tentávamos dançar, mas nem sempre dava certo, algumas músicas não eram nada dançantes.

Chegou a década de 90 e nós (meus irmãos e eu) já estávamos nas asas do rock, só que da época, Guns’n’Roses, Metálica, Iron Maden, Faith no More ..., e a coqueluche do momento, o grunge: Nirvana, Alice Chans, Pearl Jam, e por aí vai. Minha banda preferida era Guns’n’Roses. Até que uma dia minha irmã mais nova passou a investigar as coisas velhas de minha mãe, ainda lembro, uma caixa cheia de fitas cassetes, que tinham cores em degradê, vinha de uma espécie de amarelo até se tornar um tipo de vermelho, se não me engano. Lá ela começou a puxar umas músicas das quais eu já tinha ouvido ou que tinha ouvido em outra versão, eram os Beatles. Mas não dei muita importância, achava o som muito fraco, não tinha distorção de guitarras, pra mim aquilo nem era rock.

Foi um dia, estávamos escutando Guns’n’Roses, quando toca a música Live and let die, meu tio que estava conosco disse “Essa música é dos Beatles, heim!”. Não acreditei, logo ela, uma das minhas músicas preferidas. Então fiquei instigado, fui ouvir a versão original. Claro que eu preferi a do Guns. Achei a original muito sem graça, tinha uma orquestra que fazia um som esquisito, e não tinha peso. “Cadê a guitarra distorcida?”, dizia.

Então fui em frente no rock pesado, tanto que na adolescência cheguei a ouvir punk, trash, hardcore, e por aí. Mas paralelamente fui ouvindo rock nacional, estava cansado de ouvir música em inglês o tempo todo. E como se sabe o rock nacional é mais leve, pelo menos o da década de 80. Gostei, estava querendo ver mais sentido nas coisas. Foi quando me veio a idéia de fazer uma banda de rock, não posso me alongar, mas foi divertido. Então, eu e o baixista da banda, entendemos que se quiséssemos fazer música tínhamos que estudar... música! Foi quando conseguimos uma bolsa de estudos de um projeto na escola de música Muzicalizar (merchandising). Ótimo! Dois punks estudando música clássica!

Com o tempo fui vendo as sutilezas das composições, tive contato com muitos músicos bons que sempre me apresentavam sons diferentes. Foi aí que conheci o rock progressivo. Foi um choque a primeira vista, mas estava a fim de desafios. Fui desentupindo os ouvidos e fui aprendendo que rock não precisa de distorção para ser doido. Rock doido é som doido, é harmonia, é composição, é sonoridade, que também é sublime. Então disse: “Anos sessenta e setenta aqui vou eu!”.

Mergulhei no progressivo, foi quando ouvi dizer que a onda do psicodelismo no rock tinha começado com os Beatles. Falei, “Tá de putaria!” Corri pra pegar emprestado um Cd (já estava na época do Cd), era uma coletânea. As primeiras músicas não me surpreenderam tanto, já as conhecia, mas já as ouvia de forma diferente, percebendo a forma. Foi quando ouvi Strawberry Filds Forever, então entendi. Já tinha ouvido falar dessa canção na música da Legião Urbana, chamada Dezesseis, mas não a imaginava tão poderosa, de uma melodia fora do comum, e de um arranjo magnífico. Sem falar na sonoridade e de um final inexplicável, que pude contextualizar, pois não existia Pink Floyd na época em que fora gravada, na verdade, não existia nada na música pop que fosse igual.

No final do disco veio A Day In The Life, fiquei em pé, ouvindo com todo meu espírito aquela canção. Coloquei ela umas quatro a cinco vezes, e disse no meu íntimo: “Quero que toquem essa música no meu enterro”. Cheguei até a falar isso para alguns amigos meus, mas eles não levaram a sério.

Depois disso, fui atrás de conseguir os álbuns dos Beatles. Não consegui todos, haja vista que também não tinha dinheiro. Me interessei mais pela fase psicodélica, e foi aí que entendi porque as fitas cassetes de minha mãe estavam em degradê, pois Beatles é uma banda de duas fases, a Yeye-é e a psicodélica. Entendi, porque se você acompanhar todos os discos em ordem cronológica, perceberá a mudança, a evolução das composições, especialmente das letras. Embora os últimos dois discos (Abbey Road e Let it Be) tenham vertentes blues e country (origens do rock), mas a forma, variações e as melodias, eram daqueles caras de Liverpool.

Depois de conhecer com mais propriedade essa banda que todos falam, mas poucos se atrevem a infiltrá-la, percebi que no mundo do rock/pop não há muito o que fazer depois deles, o que se pode fazer é explorar os caminhos que eles abriram. E foi isso que aconteceu na década de setenta. Beatles virou um tempero, uma cor, que se pode acrescentar muito ou pouco, mas é sempre bom tê-lo à mão; É um ponto cardeal, pode você se aproximar ou não dele, mas se se distanciar demais, sua composição poderá não fazer bem a ouvidos mais exigentes, incluse aos seus.

Esta estrela guia está lá, o mundo todo a viu, e foram muitos que dela se serviram. Hoje, muitos jovens a ignoram. Isso explica tantas músicas passageiras e nauseantes no universo do pop/rock. Eu também já fui assim, mas fui salvo.

Obrigado Lennon, George, Ringo e McCartney, e todos aqueles que estiveram com vocês, fazendo música da mais alta qualidade, proliferando a jovens de todos países o sonho de se fazer uma banda e conquistar o mundo, ou pelo menos um lugar nele. Estou no Acre, em 2010, mas eu não esqueço.

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