Todos ficaram perplexos quando ele disse:
- Temos que fazer uma ponte.
- Mas senhor Prefeito, nós não temos rio, nem riacho; nós não temos nem sequer água na superfície do vale!
- Não tem problema, façamos assim mesmo!
- O senhor não deve estar bem do juízo, essa ponte não servirá de nada!
- Não seja pessimista meu querido secretário! Uma ponte é muito útil para unir as pessoas, para transpassar obstáculos... Uma ponte é... é um símbolo poderoso do destino, da passagem impensável, da superação de todas as distâncias, da comunhão, do sobrevôo! Sejamos visionários! Do que falam os poetas senão de pontes?! Vamos! Animem-se! Será um bem para todo sempre!
Houve uma tremenda confusão e na fresta do barulho o secretário diz:
- O senhor enlouqueceu, não há a menor dúvida! Vamos ter que destituí-lo do cargo. Senhores, façamos o mais rápido possível uma assembléia extraordinária!
Do que o prefeito retruca:
- Devo lembrar aos senhores que sou o homem mais poderoso e influente desta cidade, e que todos aqui me devem muito. Tornei-me isso a muito custo, um ser desprezível, para que assim realizasse meu sonho: a construção de uma grande ponte! Uma ponte que durará para sempre!
Todos se calaram, pois de fato, ele era realmente o homem mais poderoso daquela região longínqua. Então disseram de diferentes maneiras a mesma opinião:
- Bom, que se faça essa ponte, pois nem bem nem mal nos fará!
Pois o engano não tardou a aparecer. Os recursos utilizados para fazer a tal ponte eram impressionantes: o prefeito gastou tudo o que tinha e endividou a cidade de maneira que se tornou impossível sanar os prejuízos. O custo da obra era astronômico devido ao material ao qual o prefeito insistia em fazê-la, dizia ele:
- Esse material, eu sei bem, é um material indestrutível! Essa ponte não perecerá jamais ao tempo ou às catástrofes! Vejam! Eu já posso ver! É ela, é a nossa ponte!
Finalmente a ponte foi feita. O prefeito velho e louco morreu satisfeito. As pessoas maldiziam a obra, até tentaram derrubá-la, mas a ponte era dura demais... Então, como que no final de uma festa, todos, aos poucos, foram embora. A ponte ficou lá, ilesa; e diziam uns que ela estava sempre sorridente, assim como seu idealizador.
O tempo, que é areia dançante, percorria o vale e apagava as imagens, como lembranças que se esfumaceiam e cantam uma canção sem memória. A cidade sumiu, mas a ponte ali permanecia, intacta. Um dia, por obra de um acaso qualquer, pôs-se um rio a atravessar por debaixo daquela ponte eterna.
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