Confesso, eu o matei, mas sabe, não foi culpa minha, ele se jogou na minha frente. Eu não pude desviar, atropelei o pobre coitado. Mas ele se suicidou, tenho certeza! Pelo menos os fatos assim o comprovam, vejam: Estava eu dirigindo na rua do Parque do Tucumã, era noite, quando de repente um gato malhado branco-cinza lança-se ao pára-choque de meu veículo. Foi tiro e queda, um pá! seco, recheado de mistérios. Depois do ocorrido fiquei sabendo dos detalhes, fui investigar a vida daquele gato. Fiquei sabendo que ele andava muito deprimido, tinha sido despedi... ops, dispensado de seu emprego no Estado/Governo (dá no mesmo nestas terras) – estavam ocorrendo regularizações trabalhistas, mesmo que por placebos.
Ele não tinha a carteira assinada, era prestador de serviço, ou seja, não tinha direito a patavina nenhuma. Seu salário já andava atrasado há uns dois meses, e por causa disso, sua gata o deixou. Era uma gata linda, esbelta, traços delicados, de um miado provocador. Mas sabe como essas gatas são hoje e sempre, não querem ficar com um gato duro, seco de dinheiro. Então ela resolveu sair com um gato mais descolado, que pagasse as coisas para ela. Sabe, um gato que fosse influente; um gato que tivesse um cargo comissionado no governo - e foi o que ela fez. Grande negócio, um gato comissionado em ascensão.
Mas voltando àquele pobre gato branco-cinza, pude compreender melhor sua dor, seu sofrimento. O coitado já andava todo endividado, e pior, tinha sido despejado do seu muquifo. Não tinha parentes por aqui, estava na rua da amargura... Sem ter pra onde ir, pra onde fugir, sem ter como acessar ao Bolsa Família, esse gato, esse pobre animal decidiu morrer.
Eu não o escolhi nem ele me escolheu, para ele aquele era um carro qualquer, e para mim ele não passava de um gato ordinário. Mas depois de ter conhecido sua situação, sua história, tive que desconstruir as já pré-moldadas verdades gatílicas, pois agora sei que nem todo gato malhado, à noite, é pardo; e nem todo gato tem sete vidas. Alguns sofrem, morrem fácil. Eu tenho pena.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Primeiros Poderes
Gregório Dantas Mendes
Quando eu tinha entre seis e sete anos, não possuía uma visão muito boa, como ainda não possuo. Via tudo meio embaçado, quer dizer, quase tudo, conseguia enxergar com precisão objetos rentes a mim. Observava ao longe folhas que se misturavam, cores e formas mal-definidas. Tinha a visão dos impressionistas. Mas minha atenção especial era para a tv, que me entretinha com um brilho alucinante, um show de sons e imagens, um mundo do qual eu podia literalmente interagir e intervir. Na maior parte do tempo, eu a olhava, e podia distorcê-la a ponto de multiplicá-la, fantasmafoseá-la. Eu dizia, de minha voz mais secreta, “eu tenho superpoderes”.
Ainda lembro de que “via” muita televisão, mas não a “assistia” tanto. Eu explico: Como toda criança, gostava de alguns programas, especialmente desenhos. Outros programas não me atraíam, como jornais, telenovelas, filmes-chatos, comerciais, etc. O caso é que, quando o programa me interessava, eu não acionava meu poder, mas quando o programa era um saco, eu imediatamente me distanciava da tv e começava a piscar rapidamente e apertava um pouco os olhos - este era o mecanismo de acionamento.
Os adultos se impressionavam ao ver uma criança tão pequena assistindo ao jornal, mas eu não estava ligando praquelas notícias ensangüentadas e repetitivas. Eu estava distorcendo e brincando com o que via, assim como fazia com outros programas dos adultos.
Era capaz de replicar a tv inúmeras vezes: às vezes seis, às vezes sete, cinco - dependia de como estava a potência de meu poder naquele dia. Piscava rapidamente para conseguir tal efeito; meus olhos umedeciam, falava pra mim mesmo que a lacrimação era devido ao superaquecimento resultante de raios que saiam deles; raios invisíveis, os quais os outros e até eu mesmo não podíamos ver - e se alguém os visse, era claro que também possuía poderes, e então era necessário descobrir se ele ou ela eram do bem ou se seriam meus arquiinimigos...
Lembro que conseguia mover uma série de imagens de tvs na direção em que pretendia, projetando-as no ar, manipulando-as; e quando não conseguia manipulá-las, apreciar o espetáculo de tvs replicadas, dançando aleatoriamente, já valia a pena. Era como um quadro surrealista.
Um dia, alguém percebeu que eu andava piscando demais ao assistir televisão. Então me levaram ao oftalmologista e me puseram uns óculos. Foi a partir daí que comecei a perder meus poderes.
Quando eu tinha entre seis e sete anos, não possuía uma visão muito boa, como ainda não possuo. Via tudo meio embaçado, quer dizer, quase tudo, conseguia enxergar com precisão objetos rentes a mim. Observava ao longe folhas que se misturavam, cores e formas mal-definidas. Tinha a visão dos impressionistas. Mas minha atenção especial era para a tv, que me entretinha com um brilho alucinante, um show de sons e imagens, um mundo do qual eu podia literalmente interagir e intervir. Na maior parte do tempo, eu a olhava, e podia distorcê-la a ponto de multiplicá-la, fantasmafoseá-la. Eu dizia, de minha voz mais secreta, “eu tenho superpoderes”.
Ainda lembro de que “via” muita televisão, mas não a “assistia” tanto. Eu explico: Como toda criança, gostava de alguns programas, especialmente desenhos. Outros programas não me atraíam, como jornais, telenovelas, filmes-chatos, comerciais, etc. O caso é que, quando o programa me interessava, eu não acionava meu poder, mas quando o programa era um saco, eu imediatamente me distanciava da tv e começava a piscar rapidamente e apertava um pouco os olhos - este era o mecanismo de acionamento.
Os adultos se impressionavam ao ver uma criança tão pequena assistindo ao jornal, mas eu não estava ligando praquelas notícias ensangüentadas e repetitivas. Eu estava distorcendo e brincando com o que via, assim como fazia com outros programas dos adultos.
Era capaz de replicar a tv inúmeras vezes: às vezes seis, às vezes sete, cinco - dependia de como estava a potência de meu poder naquele dia. Piscava rapidamente para conseguir tal efeito; meus olhos umedeciam, falava pra mim mesmo que a lacrimação era devido ao superaquecimento resultante de raios que saiam deles; raios invisíveis, os quais os outros e até eu mesmo não podíamos ver - e se alguém os visse, era claro que também possuía poderes, e então era necessário descobrir se ele ou ela eram do bem ou se seriam meus arquiinimigos...
Lembro que conseguia mover uma série de imagens de tvs na direção em que pretendia, projetando-as no ar, manipulando-as; e quando não conseguia manipulá-las, apreciar o espetáculo de tvs replicadas, dançando aleatoriamente, já valia a pena. Era como um quadro surrealista.
Um dia, alguém percebeu que eu andava piscando demais ao assistir televisão. Então me levaram ao oftalmologista e me puseram uns óculos. Foi a partir daí que comecei a perder meus poderes.
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