Confesso, eu o matei, mas sabe, não foi culpa minha, ele se jogou na minha frente. Eu não pude desviar, atropelei o pobre coitado. Mas ele se suicidou, tenho certeza! Pelo menos os fatos assim o comprovam, vejam: Estava eu dirigindo na rua do Parque do Tucumã, era noite, quando de repente um gato malhado branco-cinza lança-se ao pára-choque de meu veículo. Foi tiro e queda, um pá! seco, recheado de mistérios. Depois do ocorrido fiquei sabendo dos detalhes, fui investigar a vida daquele gato. Fiquei sabendo que ele andava muito deprimido, tinha sido despedi... ops, dispensado de seu emprego no Estado/Governo (dá no mesmo nestas terras) – estavam ocorrendo regularizações trabalhistas, mesmo que por placebos.
Ele não tinha a carteira assinada, era prestador de serviço, ou seja, não tinha direito a patavina nenhuma. Seu salário já andava atrasado há uns dois meses, e por causa disso, sua gata o deixou. Era uma gata linda, esbelta, traços delicados, de um miado provocador. Mas sabe como essas gatas são hoje e sempre, não querem ficar com um gato duro, seco de dinheiro. Então ela resolveu sair com um gato mais descolado, que pagasse as coisas para ela. Sabe, um gato que fosse influente; um gato que tivesse um cargo comissionado no governo - e foi o que ela fez. Grande negócio, um gato comissionado em ascensão.
Mas voltando àquele pobre gato branco-cinza, pude compreender melhor sua dor, seu sofrimento. O coitado já andava todo endividado, e pior, tinha sido despejado do seu muquifo. Não tinha parentes por aqui, estava na rua da amargura... Sem ter pra onde ir, pra onde fugir, sem ter como acessar ao Bolsa Família, esse gato, esse pobre animal decidiu morrer.
Eu não o escolhi nem ele me escolheu, para ele aquele era um carro qualquer, e para mim ele não passava de um gato ordinário. Mas depois de ter conhecido sua situação, sua história, tive que desconstruir as já pré-moldadas verdades gatílicas, pois agora sei que nem todo gato malhado, à noite, é pardo; e nem todo gato tem sete vidas. Alguns sofrem, morrem fácil. Eu tenho pena.
2 comentários:
, comprovo q vc é um grande escritor!!!
Amo as fábulas, elas simplesmente incorporam nossas chagas, sonhos, loucuras. Uma fábula urbana é o bicho, é uma viagem.
Nem todo gato a noite é pardo e nem todo gato pardo está desempregado, mas atropelamos diariamente estes desgraçados. Eles estão aí desesperados e nem sabemos a cor da pele deles, são tão anônimos e numerosos.
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