Começar este texto com ‘era uma vez... ’ seria redundantemente plausível, mas devo lhes informar que este é uma crônica real para quem o escreveu, sendo desnecessária a aprovação de outrem para que se eleve a qualidade de verídico.
Havia num hospício um louco muito interessante, que diferentemente dos outros tinha uma espécie diferente de loucura: achava-se normal, agia como uma pessoa comum que tem em sua conduta social a generalização da moral estabelecida pelos demais. Ele não mentia, não faltava ao seu antigo emprego, respeitava todas as grandes leis e as pequenas normas do cotidiano, compartilhava o que tinha com quem pouco ou nada tinha, e amava apenas a uma mulher com toda a sinceridade de que era dotado.
Era normal demais, no meio de loucos ele era o louco, e entre sãos estava extirpado pela sua normalidade.
Não seguia o modo hipocritamente correto de se viver em sociedade.
Até que um dia – ah! Que dia! Um dia incomum em sua maluquice sadia – achou um frasco de remédios bem próximo a uma planta de flores pscodelicamente matizadas, estava sob uma flor destas, um frasco cintilante, que brilhava de forma diferente. Atraia e assustava por seu brilho.
Caminhando em direção aquilo ele hesitou, mas logo se decidiu por pegar o objeto, abriu. Abaixo da sua tampa lia-se: “Não abrir.” – inscrição que curiosamente só poderia ser lida se fosse aberto o frasco- Encontrou dentro deste algumas pílulas de intenso brilho assim como sua embalagem. No rótulo estava marcado, em tarja colorida, o título ‘Pílulas Gregorianas’.
Sem titubear por um momento pôs uma das várias pílulas na mão e a colocou na boca. Um choque! Um relâmpago de sensações atingiu sua mente. O doce som do silencio pairou sobre a calada voz da realidade que vivenciava.
De repente fora transportado para um universo branco com estrelas escuras, planetas quadrados, seres burros e pedras inteligentes. Uma dimensão em que os cometas seguiam a direção que apontava as suas ‘caudas’ e as calças eram usadas na cabeça dos seres que nele habitavam. Tudo isso foi sentido em menos de um piscar de olhos.
Quando voltou a si, em sua santidice maluca, percebeu que aquele frasco continha o que ele precisa para realmente ser considerado como maluco – Eis a verdade de sua vida mentirosa de doido varrido! - Decidiu então esconder o frasco mágico em uma alça de sua camisa-de-força, que estava solta o suficiente para sua mobilidade.
Ao recolher do dia, e também o recolher dos loucos às suas celas, ele retirou de sua suja companheira de manicômio o frasco solucionador de problemas – Quando o abriu desta vez estava escrito sob a tampa branca: “Não tome novamente!” – Mas desconsiderando o que lera tomou nas mãos mais uma das pílulas gregorianas e o tomou na boca mais uma vez.
Agora a sensação era outra, pois estava em um lugar escuro, e uma mão peluda veio ao seu auxilio, puxando-o em direção à luz, aproximando os olhos vermelhos como rubis a ele, era um ser com feições de coelho. Observou ao redor e, mais um choque, estava em um mundo feito de dados. Espantou-se com isso, mas percebeu que esse coelho estava muito tranqüilo, havia sonolência em seus olhos vermelhos como rubis. Virou seu olhar para o lado e viu uma garotinha loira de vestido rodado e redondo, apresentava-se muito decidida e conversava com um gato triste que trajava terno e gravata. Boom ! Voltara ao aconchego do canto frio e forrado de espuma de sua cela e aos frios pensamentos que cultivava.
E seguiram os dias, e o nosso querido maluco beleza continuou a usar das pílulas gregorianas, e seguiram-se mais avisos a cada uso destas – ‘Já chega!; Um caminho sem volta; Acabará..., Já é o fim? ’.
Contando para a lua e a ferrugem do ferro que detinha seu corpo é ouvido pelo carcereiro – que já era de média idade, e tinha uma peculiar admiração por histórias fantasiosas que ouvira de loucos durante seus dias guardando o santuário dos ‘tantans’ -, o qual prestara muita atenção a cada gota de fantasia que escorria de sua mente e pingava por entre a sua boca, ecoando um cantar de palavras encadeadas na forma de seus fatos vividos pelo tomar das pílulas gregorianas. O homem falou de suas desventurosas aventuras ao carcereiro, e sempre que podia completava a cada final um lamurio de liberdade, alegando ser normal como todo e qualquer ser humano.
E mais alguns dias se passaram, com o homem fazendo uso das pílulas gregorianas para viver as ilusões que delas provinham, e o carcereiro a procura de ouvir as novas estórias que do homem provinham, e o homem a cada história contada pedia por saída do manicômio, de onde a liberdade provinha.
Encanto mais e mais pelas estórias, e convencido mais e mais pelos apelos de sensatez, o carcereiro pediu a diretoria do hospício uma audiência com o avaliador de loucos para com o homem normal, que estava preso como louco. A princípio o diretor-chefe do ‘loucural’ negou, mas o carcereiro começou a contar o que ouvira do sensato maluco de nossa história, e assim, banhado pelos dizeres do homem que guardava loucos, foi dada a permissão para uma avaliação.
Ao entrar na sala do psicólogo, o homem que usava pílulas gregorianas se espantou com a mobília de aspecto futurista se contrastando com uma mais velha, de época, e ambientando o mesmo lugar de forma tão harmoniosa, assim também os quadros dependurados de formas inusitadas, os clássicos de cabeça para baixo, os abstratos em posições que remetiam ao jogar de roupas de um adolescente em seu quarto, quadros e mais quadros, nas paredes, no chão, e pasmem, até no teto! Pareciam com um papel parede, mas se atentando bem, o homem via pelas frestas que sobravam na disposição dos livros as paredes pintadas de branco, e o teto, que também pouco se via, pintado como um céu, onde na entrada era claro como o amanhecer e ao fim da sala do psicólogo era escuro como a noite. E livros atirados em toda a parte daquele escritório, no chão, fechados e abertos, encima de um bebedor de água, livros de formas redondas e coloridas, grandes e pequenos, em branco... Uma infinidade de livros. Em suma, era uma visão tal qual uma biblioteca ou museu que fora abatido por um bombardeio, mas que caoticamente estava organizado.
Ao adentrar na sala onde se encontrava o psicólogo mais uma surpresa, um homem de jaleco com estampas berrantes, que faziam alusão aos trucos ilusão de óptica. Muito sério, de óculos caídos no nariz, olhava para o pseudo-maluco. Passou algumas horas e depois de ouvir as histórias do nosso maluco beleza, muito encantado, deu o veredito: Soltem já este homem !
Após liberto, o homem danou-se a enlouquecer normalmente o povo que normal loucamente estava. Falou a muitos o que descobrira nos seus sonhos encantados, e todos lhe davam ouvidos, mais que isso, se encantavam e ficavam com fome de viajar com este homem.
Eis que lhe veio a idéia de escrever um livro sobre o banho de psicodelia magnética cerebral luminosa que recebia das pílulas gregorianas...Que já restavam em poucas no frasco colorido. E assim o fez, escreveu o livro que foi sucesso imediato. E uma nova edição com novas histórias e um pouco menos de sucesso – ao passo em que também se acabavam as pílulas gregorianas – e mais um livro contando as aventurosas viagens do homem são foi escrito, e menos sucesso este obteve.
Ao termino da sétima edição de livros loucurosos do viajoso normalítico homem não se vendeu sequer uma edição. Este estava triste, pois observara que o mundo fora do hospício era tão louco, tão maluco, pessoas doidas vivendo de mentiras inventadas por elas, pessoas malucas correndo tentando viver um roteiro que outros doidos haviam culturalmente criado, pessoas acreditando em coisas possíveis como se fosse sonhos impossíveis –Oh, tudo tão tedioso! Beirando o pé-no-saquismo- E o nosso desbravador de outras imaginações cada vez mais enjoado, mais desdenhoso daquilo.
Certo dia, sentando em um banco branco de uma praça qualquer, onde se sentia naturalizado pelos mendigos esquizofrênicos do local, puxou assunto com um senhor normal que sentava ao seu lado. Perguntou se este sabia quem era, ele responde secamente que não. Não satisfeito expôs a sua vida de escritor famoso revelando seu nome e seus trabalhos, e o senhor continuo indiferente, mas respondeu ‘bem, o seu primeiro livro é ótimo’ sem demonstrar nenhuma emoção de euforia. E o homem replicou: “O que este teve que não fiz nos outros, qual o seu problema?”. E o velho homem respondeu: “É que este é diferente, pois conta a história de um homem normal que não é normal e volta a ser normal, os outros só prosseguem com a normalidade deste homem”.
Depois desta breve conversa o nosso intrépido marujo dos sete devaneios resolveu voltar para o hospício, onde todos eram normais, esclareceu-se que os doidos ficavam fora do hospício, para onde não voltaria jamais. A maior prisão de imaginação ficava fora daquele recinto. E voltou para o local donde viajara pela primeira vez com o auxilio das benditas – E como viu! – pílulas gregorianas. E sacou o frasco do bolso, e abriu a tampa, preparando os olhos para ler a mensagem da vez no verso da tampinha, e estava escrito “Bem-vindo à realidade my old friend” – Ha! Que irônico não?! – E o homem furioso, com mil dragões cuspindo fogo dentro de sua cabeça, lançou próximo de uma planta de flores pscodelicamente matizadas, e o frasco ficou sob uma flor destas. E o homem viveu feliz para sempre.
...Mas o carcereiro observava o seu grande ídolo, já não famoso, e ficou curioso com o que acontecia ali perto daquela planta. Quando o homem saiu ele foi averiguar a situação. Então achou um frasco de remédios bem próximo a uma planta de flores pscodelicamente matizadas, estava sob uma flor destas, um frasco cintilante, que brilhava de forma diferente. Atraia e assustava por seu brilho...Mas aí já é outra história...
Yannyo M. Costa & Barroso
quinta-feira, 29 de março de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
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