Aproveito esse momento comovente pra também comer um pouco do cadáver desse escritor afamado, afinal vive-se disso, de sobras, de momentos inoportunos, de pútrida e deliciosa carniça: heranças desse último século, aprofundadas neste que se inicia.
Não foi na escola que li seus livros, foi fugindo dela. Escola não é lugar de leitura - incluo também a universidade*. Li por conta própria, em intervalos noturnos e férias paralíticas. Meu primeiro romance foi o Evangelho Segundo Jesus Cristo. Foi por curiosidade? Sim, era simplesmente muito famigerado. Tive que conferir. Mas confesso que não me chocou nem um pouco. Foi pra mim uma versão humanista do evangelho e ao mesmo tempo reveladora da opressão divina. Chocava-me mais Nelson Rodrigues. Não entendia por que tanto alarde. Mas pra quem foi criado em parte por uma mãe atéia e comunista, nada assusta.
O que me surpreendeu foi sua maneira de escrever. Tive enormes dificuldades. Seus diálogos são confusos, seu narrador dissolve-se nas falas dos personagens e também nas descrições/reflexões poéticas; há (con)fusão de vozes. Acrescento o fato de que ele (o autor) não subestima seu leitor, pelo contrário, o desafia. Não diz tudo, espera que o aventureiro conheça ao menos a versão oficial (nos casos do “Evangelho” e agora também do “Caim”), e que também tenha um pouco de cultura que vá além de Shoppings Centers. Enfim, tive que ler algumas páginas deste livro inúmeras vezes, também paralelamente relembrar os quatro evangelhos. Foi intenso.
Vencido esse romance, me aventurei no Ensaio Sobre a Cegueira, este fora recomendado pela minha irmã mais velha (também uma errante como eu). Aqui devo acrescentar todo meu apreço a esta obra. Fui realmente arrebatado, não conseguia parar de lê-la. Fugia das aulas do curso de Letras/Português pra ir à biblioteca continuar lendo. Às vezes lia na sala mesmo, antes do professor ou professora (não lembro) chegar. Enfim, minha vida era aquele livro, fora dele, tudo era ilusão.
Com o tempo, estava mais maduro para as pontuações inusitadas deste autor. Tinha aprendido seu ritmo. Dançava com ele, pintava quadros e dirigia cenas. Desaprendi a pontuar com Saramago, e aprendi algo muito melhor: A língua escrita deve estar à mercê da beleza no seu sentido mais amplo, isto quer dizer, abrangendo também o seu contrário. Pude ver, em minhas andanças, e nitidamente em José Saramago, que em se tratando de língua, não existe regra que não possa ser corrompida (Ex: o sujeito poderá vir no fim do parágrafo separado de seu predicado por um ponto). Contudo, ele não desobedece por desobedecer, pra dizer-se do contra, como muitos jovens incautos e iludidos, ele desobedece pra criar. E cria. Recria a língua: tecido do ser.
Para finalizar, não posso deixar de fazer uma observação: para ler Saramago é preciso distanciamento dessa vida conturbada, caótica, barulhenta e disforme. Deve-se buscar um tempo que não se dispõe. Aprendi isso a muito custo. Tinha (e ainda tenho) a mania de ler no ônibus, em paradas, em salas de esperas de hospitais etc. Mas não! Saramago não! Não mais. Ouçam: Saramago é sagrado. Precisa-se de ritual, de estado receptivo do espírito. Não adianta forçar (entenda, não estou falando de esforço), não se está a ler uma revista semanal de opiniões, lê-se literatura, a das mais perturbadoras, entenda-se: transformadoras.
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*Irritava-me o excesso de aulas expositivas sobre obras e autores, quando poderíamos, na verdade, lê-los. Quatro horas, durante quatro anos, sem leitura. Vide o exemplo de universidades mais avançadas: não há aulas todos os dias, os alunos lêem bibliografias recomendadas e, em data marcada, aparecem para o debate.
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