sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Manifestações políticas na caixa registradora

O consumo se consolidou na nossa sociedade como uma condicionante. Para esmagadora maioria da população, não há a escolha “consumir ou não consumir?” – essa, definitivamente, não é a questão. No geral, ou se consome ou se morre! Essa condição tem mais uns agravantes: nosso sistema de produção baseia-se intermediariamente nele, no consumo, ou seja, a força motriz de nossa economia está no fato de se produzir para se obter lucro. Assim, de forma simplificada, quanto mais produtos se vender, maior o lucro obtido. Logo os produtores precisaram intensificar o consumo, como? Alienando o consumidor. Este não poderia apenas consumir para sua subsistência, deve consumir compulsivamente, como um transtornado. Consumir coisas que não precisa e em excesso. Assim está alicerçado nosso sistema de produção, que não se importou (e em grande parte não se importa) com as consequências de uma produção exacerbada, que causou enorme abalo às condições naturais do planeta.

Sabe-se que justamente nos países em que se discutem mais permanentemente os processos produtivos e suas consequências para o mundo dos homens (que inclui necessariamente o da natureza), foram e são os que intensificaram ao limite esse modelo de produção e consumo. São os chamados países ricos - a maioria fica no norte do globo. Atualmente, com o iminente colapso das condições produtivas, principalmente no que se refere às questões ambientais, cujo desgaste fora tanto que poderá inviabilizar a existência de futuras gerações – e sem gente, não há como produzir e nem para quem produzir -, a população do mundo, especialmente a dos países desenvolvidos (talvez por um peso na consciência) está, em tese, disposta a consumir produtos politica e ecologicamente corretos, mesmo que paguem mais caro por eles, criando assim o chamado consumo ético.

Tal tendência de consumo é louvável, mesmo porque contraria a postura passiva do consumidor e estimula a demanda produtiva para um mercado mais consciente, contudo, há limites que não podem ser ignorados: o principal deles é a pobreza. Uma pessoa rica e instruída pode perfeitamente escolher o que consumir, enquanto uma pessoa com poucos recursos financeiros não pode se dar a esse luxo. O motivo é obvio, seu objetivo é fazer com que seu parco orçamento seja otimizado ao máximo, isso implica em consumir produtos baratos, não importando a procedência.

Um outro fator a ser levantado é o fetiche que a tal tendência de consumo ético pode causar. Até onde se pode chamar de conscientização e não uma moda passageira? Um flerte juvenil? Uma onda vazia de conceitos que venha tão somente a agregar um grupo? Isto é, o consumo consciente passa a ser mais uma etiquetação de pessoas que podem dizer que estão fazendo o bem, e que buscam se enquadrar no grupo dos “cabeças feitas”. Podem alegar que isso não importa, pois o efeito é o mesmo. Aparentemente sim, porém como tendência de comportamento e de discurso pode causar alguns engodos, tais como os resultados de pesquisas em que se baseiam na opinião do consumidor. Uma delas, por exemplo, diz que 62% de uma faixa de consumidores está disposta a pagar US$ 5 a mais por um sutiã produzido de forma mais correta. Isso não significa que eles realmente o façam, pois pesquisas que venham a tão somente entrevistar o consumidor não está na verdade demonstrando a realidade, e sim uma tendência. Há também de se considerar a possibilidade de que produtores oportunistas venham a burlar as normas de qualificação de seu produto, tão somente porque encontram possibilidade de lucro maior, visto que os “produtos corretos” são em média mais caros. Isso pode ocorrer especialmente em países com órgãos fiscalizadores débeis e corruptos, como é o caso de um país muito familiar.

Enfim, não se pode negar que a conscientização do consumidor não faça parte de um processo de aperfeiçoamento de nosso sistema de produção, mas não se pode atribuir-lhe poderes miraculosos, especialmente quando tratado de forma desconexa, pois no nosso sistema produtivo outros agentes e circunstâncias estão envolvidos. Não podemos desvincular a participação dos Estados nesse processo e tão pouco desconsiderar as condições de vida da maioria da população do mundo, que por ter muito pouco dinheiro, muitas vezes não consome nem o necessário para uma existência plena, quiçá produtos politicamente corretos.

2 comentários:

Gregório D. Mendes disse...

Iânio, me dê o endereço do seu blog. Afinal, creio que você seja meu único leitor... rsrs. Divulgue meu blog e divulgarei o seu. Vamos blogar.

Eri Lima disse...

Não, não. Eu as vezes entro para ver se tem textos novos... quase nunca tem, e hoje olha só que surpresa boa, tem alguns por aqui...
bjosss
saudades de vcs e da terrinha!