domingo, 24 de julho de 2011

MITO NÚMERO 3: “O PROFESSOR TEM QUE SER PAI, MÃE, TIO, ASSISTENTE SOCIAL, PSICÓLOGO ETC.”

Mais uma vez a falácia, ou a boa intenção dos infernos. Acha-se esse mito/discurso gracioso, engrandecedor da profissão. É repetido sem o mínimo de reflexão, por professores, por uma parcela da sociedade, pedagogos, e principalmente, por pessoas que exercem cargos de comando na educação. Não se pode negar que exista a responsabilidade do professor para com os alunos, mas não devemos confundir as coisas. A principal atribuição do professor é ensinar, educar e aprender – professor é aquele que aprende e estuda -, coisa que todos podem fazer, não acha? Não precisa necessariamente ser professor para se fazer isso, mas veja que, graças a LDB, hoje um profissional da educação tem uma formação específica, pelo menos era pra ter. Ele sabe de coisas que dificilmente outro profissional saberia, em especial, como se dá a aprendizagem da criança e do ser humano em geral, sem falar nas questões específicas do conhecimento de sua área - pelo menos assim era pra ser.

Mas por que querem dar tantas atribuições aos professores? O que há por trás disso? Parte da resposta pode ser tenebrosa demais para ser encarada nos olhos. Professores que proferem tal discurso, em geral, estão se queixando da sobrecarga de responsabilidades, o que não significa que estejam de acordo com essas atribuições “outorgadas”. Mas quando vem um (i)responsável pela educação, afirmando tais sandices, a coisa é mais ardilosa. Há muito que venho me deparando com um quadro ideal de profissionais de uma escola que incluiria um psicólogo, ou psicopedagogo, um assistente social, enfermeiro, auxiliares de coordenação... Mas cadê? Onde estão? Quem quer pagar por eles? Contratá-los? - Com os salários que lhes são de direito?! E o pior é que não há leis que obriguem que estes profissionais estejam nas escolas.

Em suma: o professor está sozinho! Tudo sobra pra ele! Ele deve dar o jeito! Por isso que muitos discursos proferidos sobre educação já começam com “O professor tem/deve...” Mas por que chegamos a isso? Lamentavelmente tivemos que conviver com uma corrosão social. Veja: Por que a escola piorou em se tratando de relações interpessoais? - Porque a sociedade como um todo piorou, em especial neste quesito. Estamos degradados socialmente: os valores que dispomos não nos proporcionam um bem-estar; não sabemos conviver: somos mais desarmônicos e violentos. Os responsáveis pela criação dos alunos vivem sobrecarregados, presos a um mundo de ignorância e violência, e acreditam que EDUCAÇÃO se dá somente na escola.

Não digo que há somente a degradação material, posto que pobre neste país sempre existiu, mas que o pobre de hoje está espiritualmente corrompido. E pior: não há dignidade em canto algum, rico ou pobre, todos apodrecem a sua maneira. Só para exemplificar: na época de nossos avós, os alunos não precisavam colocar correntes e cadeados nas bicicletas das quais faziam uso para chegar à escola. Hoje são itens indispensáveis, e mesmo precavido, o aluno pode ter seu bem danificado só para o entretenimento de seus “colegas” valentões. E o tal do bulling? Essa importação ignóbil da sociedade enferma estadunidense! No tempo dos nossos avós, meninos mais abastados jogavam bola com seus colegas descalços depois da aula, atualmente isso já é uma raridade. Acabamos por imitar um modelo que não nos pertence, o de segmentação por grupos; importamos até mesmo termos que não são da nossa língua para nomeá-los. É triste, mas chega de exemplos, posto que poderia passar o dia todo.

Então, quem poderia nos salvar de tal decadência? O Superman? A Mulher Maravilha? O Batman? O Scooby Doo? Não! Tcharam: o professor! Esse ser ultrassuperpoderoso indefectível, capaz de resolver todos os problemas sociais! Incluindo a deserção familiar. Minha gente: “ser pai, ser mãe” ou querendo dizer “substituir pai, mãe, tio...” Isso não existe! Isto é INEXISTÍVEL! Não existe um profissional que possa fazê-lo ou sê-lo, sejamos racionais! Todos devem fazer sua parte e, levando-se em conta que o professor fica apenas 4 horas por dia, 5 dias por semana, em média 200 dias ao ano, sendo ao todo 800 horas por ano, e considerando que o ano tem 8.760 horas e, sendo bastante razoável, subtraindo o que um indivíduo em média utiliza para seu descanso que são 8 horas/dia, o que dá 2.920/ano, fazendo as contas são 5.040 horas/ano que os alunos ficam acordados e em outro lugar que não a escola, e que nesta, frisando, são apenas 800 horas/ano. Então, quem tem maior tempo de convivência com o aluno?

E ser psicólogo? É um desrespeito a esse profissional que passa cinco anos para fazer um bacharelado, parece que é só querer ser e pronto! Ninguém precisa estudar para sê-lo. Tal consideração também se estende ao assistente social, enfermeiro, etc. enfim, todos aqueles profissionais que alguns irresponsáveis ou pilantras teimam dizer que o professor tem que ser. Quem dera o professor pudesse ganhar igual a estes, ou que caso acumulasse tais atribuições, como apregoam os energúmenos, também acumulasse seus salários.

3 comentários:

Joilson Arruda disse...

Grande, Gregório! sempre engajado e cada vez mais careca.
abraço.

Jarbas Anute disse...

E advogado também meu nobre colega! AH, não ligue para o Joilson: lembre-se, é dos carecas que elas gostam mais...hehehe

Joilson Arruda disse...

rs... Grande Jarbas, vc parece ter bom humor. Gregório é um amigo "das antigas". Dono de uma notável capacidade de Análise. Como poucos ele consegue se revoltar com as mazelas sociais e traduzir numa retórica coerentemente inteligente. Digo isso para que não penses que sou daqueles chatos "cricris". Ele sabe que eu estava brincando. Abraço.