“(...) os homens mudam de governantes com grande facilidade, esperando sempre uma melhoria. Essa esperança os leva a se levantar em armas contra os atuais. E isto é um engano, pois a experiência demonstra mais tarde que a mudança foi para pior.”
A Frente Popular chegou ao poder graças à esperança de melhoria para a população, o que em verdade, em grande parte foi feito, mas não em absoluto. Muitas obras e reformas melhoraram a vida do povo, mas o exagero propagandístico (o melhor lugar pra se viver) irritou a população, tanto pobres (que mais sentem na pele as dificuldades do dia-dia) quanto a classe média mais informada, que paga excessivos impostos e sofre com a precariedade de muitos serviços.
É certo de que houve conquistas, em especial, nas estruturas do Estado. Contudo deve-se admitir a estagnação, pois a cada melhoria exigi-se maior esforço. Veja-se: não basta apenas reformar hospitais, escolas, prédios administrativos etc. é preciso melhorar também o atendimento, a qualidade do serviço, entre outros. Em princípio a melhoria estrutural satisfaz a população, mas essa, é claro, quererá mais, e com toda razão.
Com a estagnação dos avanços - posto que pararam, a grosso modo, nas estruturas -, a população desconfiou da capacidade dos atuais governantes em promover o aprimoramento social, ou o que é pior, a população acabou por desconfiar da existência desse interesse nos governantes. Soma-se a isso a falta de realidade nas propagandas e discursos afoitos que acabaram por ofender a inteligência de muitos, discursos esses que pintavam o paraíso e davam o sinal de que nada mais precisava ser feito.
O povo, de modo intuitivo, sabe que “sempre se tem pra onde melhorar, mas que também sempre se tem pra onde piorar”, e percebendo que, de algum modo, a centralização do poder em um grupo, acabou por estagnar as melhorias, prefere se arriscar. Tem o pensamento de que se contrapor um outro grupo no poder, poderá se beneficiar, o que pode ser um equívoco, mas enfim, esse raciocínio tem sua razão de ser. Ouve-se: “é preciso alternar o poder para que eles não fiquem mal-acostumados”, ou, “não se pode ter o mesmo partido na presidência, no governo do estado e na prefeitura, pois eles vão mandar e desmandar sem ter quem os fiscalize”. É preciso reconhecer que tais pensamentos têm um fundo lógico, e sempre se equivoca quem desconhece a lógica do povo ou alega que ela não existe.
Maquiavel contrapunha-se a mudanças imediatistas de poder, visto que tais mudanças em muito lhe prejudicaram, mas no contexto atual, mudar de governantes pode ser uma das poucas armas que restou para o pobre e sofrido povo, que não vai deixar de usá-la, mesmo sabendo dos riscos. Cabe agora aos atuais governantes demonstrar na prática que estão melhorando a qualidade de vida da população, e que estão dispostos a continuar melhorando, sem eloqüência vazia, propagandas excessivas, altaneiras e irreais, e em especial, sem imposições.
E, para deixar bem claro, nunca afirmar que já se atingiu o paraíso, mesmo porque isso é irreal, e que por fim leva a entender que não há mais nada para se fazer, nenhuma conquista, nenhum sonho ou melhoria, o que leva o povo a se arriscar com outros governantes, seja por acreditar que outros podem fazer mais, ou para contrapor o poder (promovendo a dialética, o movimento, e autofiscalização dos poderes), ou para se ver livre de opressões e imposições, ou tudo isso junto e mais a desconfiança de que o atual governo seja incapaz e/ou desinteressado em promover ou continuar promovendo melhorias.
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