Gregório Dantas Mendes
Quando eu tinha entre seis e sete anos, não possuía uma visão muito boa, como ainda não possuo. Via tudo meio embaçado, quer dizer, quase tudo, conseguia enxergar com precisão objetos rentes a mim. Observava ao longe folhas que se misturavam, cores e formas mal-definidas. Tinha a visão dos impressionistas. Mas minha atenção especial era para a tv, que me entretinha com um brilho alucinante, um show de sons e imagens, um mundo do qual eu podia literalmente interagir e intervir. Na maior parte do tempo, eu a olhava, e podia distorcê-la a ponto de multiplicá-la, fantasmafoseá-la. Eu dizia, de minha voz mais secreta, “eu tenho superpoderes”.
Ainda lembro de que “via” muita televisão, mas não a “assistia” tanto. Eu explico: Como toda criança, gostava de alguns programas, especialmente desenhos. Outros programas não me atraíam, como jornais, telenovelas, filmes-chatos, comerciais, etc. O caso é que, quando o programa me interessava, eu não acionava meu poder, mas quando o programa era um saco, eu imediatamente me distanciava da tv e começava a piscar rapidamente e apertava um pouco os olhos - este era o mecanismo de acionamento.
Os adultos se impressionavam ao ver uma criança tão pequena assistindo ao jornal, mas eu não estava ligando praquelas notícias ensangüentadas e repetitivas. Eu estava distorcendo e brincando com o que via, assim como fazia com outros programas dos adultos.
Era capaz de replicar a tv inúmeras vezes: às vezes seis, às vezes sete, cinco - dependia de como estava a potência de meu poder naquele dia. Piscava rapidamente para conseguir tal efeito; meus olhos umedeciam, falava pra mim mesmo que a lacrimação era devido ao superaquecimento resultante de raios que saiam deles; raios invisíveis, os quais os outros e até eu mesmo não podíamos ver - e se alguém os visse, era claro que também possuía poderes, e então era necessário descobrir se ele ou ela eram do bem ou se seriam meus arquiinimigos...
Lembro que conseguia mover uma série de imagens de tvs na direção em que pretendia, projetando-as no ar, manipulando-as; e quando não conseguia manipulá-las, apreciar o espetáculo de tvs replicadas, dançando aleatoriamente, já valia a pena. Era como um quadro surrealista.
Um dia, alguém percebeu que eu andava piscando demais ao assistir televisão. Então me levaram ao oftalmologista e me puseram uns óculos. Foi a partir daí que comecei a perder meus poderes.
2 comentários:
É por isso que, vez por outra, eu te via piscando incessantemente. Cheguei até cogitar, na época: esse menino é doido. De certa forma eu estava certo! [risos].
Acredito que você sofra de uma terrível insônia. Ó a hora que esse comentário foi postado! Procure ajuda - não minha é claro, pois eu também sofro desse mal(risos).
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