Eu quero falar sobre a verdade...
A verdade é que por volta do século 38, depois da 6ª, da 7ª, da 8ª, e da 9ª Guerra Mundial, a Humanidade, quase desapareceu. Aos farrapos aqueles poucos sobreviventes decidiram parar com a carnificina e resolveram refletir sobre o que há no ser humano para ele ser tão destrutivo. Promoveram então um grande congresso onde praticamente todos participaram.
Nesse congresso, passaram 100 anos conversando, debatendo, discutindo, discordando... Até que alguém levantou a idéia de que era justamente isso: a COMUNICAÇÃO. O ser humano utiliza-se de meios falhos para se comunicar, por isso o desentendimento, a dissimulação, as limitações. Todos concordaram com a idéia, afinal, parecia ser a explicação mais plausível até então.
Passaram mais 100 anos discutindo para decidir o que iria ser feito. Até que alguém que já não agüentava mais aquela situação, defendeu que se deveria proibir de vez a comunicação! Que não se utilizasse mais o signo: a PALAVRA, sob nenhuma de suas formas e dimensões. O que assim foi votado e decidido por unanimidade. Então, por força de Lei, do Estado Único da Humanidade, proibiu-se a todo e a qualquer ser humano, comunicar-se.
Acontece que, escondidas das autoridades, as pessoas continuavam se comunicando, falando, sussurrando. Logo, por força de Lei, do Estado Único da Humanidade, foi mandado que se extirpassem as cordas vocais de todos! Sem exceção! Pois naquela época, sob nenhuma hipótese, ninguém estaria acima da Lei do Estado Único. Ninguém.
O tempo foi indo, e às escondidas, as pessoas ainda continuavam se comunicando, utilizando-se da escrita e dos gestos. Logo, decidiu-se que, por força de Lei, do Estado Único da Humanidade, todo ser humano fosse cegado. E assim foi feito, sem exceções.
Mesmo assim, as pessoas continuavam a se comunicar, só que agora, através dos sons rítmicos: batendo palmas ou em objetos, de forma que inventaram vários códigos e dialetos, assim como se proliferaram os que já existiam. Não demorou muito para que o Estado Único da Humanidade mandasse arrancar o tímpano de cada ouvido humano.
Muda, cega e surda, a Humanidade perambulava pelo frio salão de mármore de sua alma. Foi quando, por uma extrema necessidade, as pessoas desenvolveram uma habilidade aparentemente inexistente, a telepatia. Comunicação por ondas cerebrais que ligou diretamente um indivíduo a outro. Dessa forma, todos se intercomunicaram, criando uma rede única de conexões instantâneas. Assim, surgiu uma nova espécie, sem nome, sem palavra, que se sintonizavam por ondas rápidas como o pensamento.
Com o passar dos séculos e suas conformações, instalou-se a perfeita harmonia entre estes seres inominados. Um milagre! Todos agora realmente se entendiam. As pessoas se tornaram verdadeiramente solidárias, pois conseguiam estabelecer uma conexão direta e sensitiva com os outros, a pura alteridade. Assim, nem mesmos os casais cometiam brigas irascíveis, pois passaram a entender a cor e a intensidade do sentimento alheio, sua freqüência e suas variações. E como é de se prever, não havia mentiras.
(Quero dizer também que aqueles cujo interesse fosse prejudicar alguém, direta ou indiretamente, eram sumariamente executados pelos demais. De forma que,com os séculos, não havia mais ninguém verdadeiramente capaz de ter tais intenções).
Outras funções cerebrais surgiram, ou foram aprimoradas, coisas consideradas impossíveis até então. Assim, despertados novos sentidos, revelou-se a mais pura compreensão do universo, e os avanços foram incomensuráveis. Logo, não havia mais mistérios! Perante novos olhos, toda a realidade fora revelada! Descobriu-se o que verdadeiramente se é, e o que verdadeiramente são todas as coisas. Os infinitos.
(...)
Vivi entre estes seres sem nome, conectado a uma rede cerebral, indissociável, indiferenciável. Todos eram, de alguma forma, um único ser; todos eram... ninguém, nada. Unos, harmônicos e perfeitos. Me vi no sétimo céu, o que para mim não deixava de ser o mais profundo dos infernos.
Não conseguia saber quem eu era. Não podia dizer sequer, “eu!”... Já não era nada, não existia. Era apenas uma massa amórfica sem nome. E para piorar, não havia mais nada a ser revelado, ou inventado, ou imaginado... E quando se sabe de toda a verdade, tudo é limite... e eu não queria saber tanto.
Por isso eu tive que recorrer a este século, a esta era primitiva. Voltando no tempo...
Voltei porque queria mentir, porque queria dizer “eu”, queria fazer poesia.
4 comentários:
Frippon precisa virar um livro. o conto é bom e exige continuidade. achei estranho as reticências, dão a impressão de estar faltando algum fragmento do conto. meu pai leu e gostou. a Ana também gostou e disse que, se fosse dela o conto, tiraria alguns adjetivos, pra deixar o conto mais 'frio'.
Ela tem razão, estou sempre tentando dar uma enxugadinha, pois sinto também coisas que sobram. Esta história, ela não poderia ser escrita, ela deveria ser apenas contada. Ela é infinita para mim e sempre inacabada. Todos devem contá-la de outras formas, da forma que sintonizassem.
por que essa necessidade de comunicação
toda ela: imperativa!
com algum nome,
não se é, porque atrapalha.
agora,
o tempo, esse sim, borrifa muito sentido ao que poderia.
ave, palavra!
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